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domingo, 7 de março de 2021

Eis-me agastado das agruras cotidianas

Eis-me agastado das agruras cotidianas,

Eis-me lasso de minhas fraquezas, 

Eis-me rebentado nos penedos do medo e da incerteza, 

Eis-me incapaz de olhar no rosto do futuro sem tremer perante o abismo desconhecido, 

Eis-me amando a vida mesquinha terrena, 

Eis-me na corrida de ratos que leva a lugar nenhum, 

Eis-me sôfrego pelo prazer, 

Eis-me curvado e batido pela mão poderosa do destino, 

Eis-me oprimido pelos espectros que rondam minha mente, 

Eis-me fremente por uma liberação custosa. 

Eis-me corrompido pela minha época, 

Eis-me não confiante em meus instintos, 

Eis-me último homem.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Se tu és um homem saudável, tens o dever de preservar-te

Se tu és um homem saudável, tens o dever de preservar-te, a saúde enquanto pode-se desfrutá-la é uma dádiva dos céus, e é muito trágico ver pessoas trilhando o caminho da autodestruição hedonista, algo que nossa sociedade incentiva.

Fomos feitos para florestas agrestes, planícies infinitas sob firmamentos desabridos, o ar transcendente da montanha e a doce maresia das benévolas praias de nossa terra.

O contato com a natureza nos banha nas leis sempiternas às quais todos estamos submetidos na condição de mortais, nos lembra que nossa vida acabará em breve, mas ao mesmo tempo nos incita à vida verdadeira, queimar a nossa vida com a flama da vontade, imprimindo no mundo por pouco que seja a realização de nosso verdadeiro Eu. A verdadeira alma.

Como Nietzsche dissera; escrever o poema de nossa vida com sangue. Ou seja, a entrega total a própria natureza, o sangue como símbolo da individualidade perfeita e essência do homem, o fluído vital, um sangue forte que se inflama nas veias e traz ação ao mundo, traz o verdadeiro espírito do homem à luz da terra. O símbolo da unidade de seu ser.

A dissolução é o contrário, é o símbolo máximo da nossa era, a dissolução contra a qual devemos lutar, quando perdemos nossa essência, quem realmente somos, nossa visão embaciada pelos confortos e distrações, o sangue se torna aguado, a vontade se dissipa, a verdadeira natureza obliterada.

O conforto como arma de dissuasão. Tudo que o sistema oferece em profusão, entretenimento eterno. O homem se entretém não só das suas preocupações, ao buscar isso, ele se entretém de si mesmo, a mente estando nessa situação precária de torpor espiritual, revolta-se, e assim constatamos as altas taxas de doenças mentais no mundo moderno, suicídios... Não são doenças em si, mas sintomas, um modo da mente dizer "homem, abandona esse estilo de vida doentio, sê fiel a ti mesmo".

A dissolução da verdadeira natureza, do Eu, é a arma pela qual a cultura moderna desarma o espírito do homem, e o integra a massa conforme. 

À lúrida sedução dos vícios e confortos modernos, a esse canto nefasto das sirenes, ao qual Odisseu tivera de se amarrar no mastro de seu navio para não ceder, isso também um símbolo. À mórbida dissolução através do prazer, poucos homens tem a hombridade de resistir. Seja um daqueles que escreve a vida com seu próprio sangue, a morte não parecerá mais tenebrosa.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Mais um ano

E tudo parece estranho, novas experiências, confirmando velhas ideias, sentir-me compelido a aquiescer à fragilidade humana, e também a sua fortitude, às batalhas que não podemos nem vamos vencer e observar as estruturas e padrões mundanos se repetindo sem fim, seria esse o eterno retorno de Nietzsche? Não, o eterno retorno deve ser algo mais complicado que isso.

Tornar-se consciente de que a vida humana é breve, expurgar os demônios do coração, se arrepender, avançar, ascender e cair de novo, o ciclo eterno, a condição do homem.

Roger Scruton morreu, o filósofo da beleza, confesso que nunca li nenhum livro dele. Apenas assisti ao seu documentário, e sobre a beleza dar sentido a vida, eu concordo totalmente, premissa inclusive adotada por Nietzsche quando se referia a arte.

Lutamos enquanto temos força nos membros, e quando não tivermos mais? E quando tivermos somente nossa mente por nós? Essas perguntas me assombram as vezes.

E quanto ao que construímos de material nesse mundo, de que vale? Em cem anos pouquíssimos de nós seremos lembrados por nossas obras materiais. Em 1000 anos ninguém sequer saberá nossos nomes. Até mesmo nosso milieu cultural será lembrado como uma época de insanidade e vulgaridade.

Mas há uma mensagem nossa que atravessará os éons e infinitude de espaço e tempo, nossos genes. Em 1000 anos nossa mensagem genética, em sua boa parte ainda estará nessa terra, se os humanos existirem.

Por isso que, a despeito da virtude e da moral, materialmente falando, nossa família é importante, são nossos mensageiros através do tempo e espaço.

A vida é mais completa e plena quando se constrói uma família. Essa é a missão do homem, pela eternidade.

domingo, 24 de março de 2019

Destino eu te sigo!

"Schicksal, ich folge dir! Und wollt' ich nicht,
ich müsst' es doch und unter Seufzen thun!"

"Destino eu te sigo! Se não o quisesse,
eu teria de fazê-lo, mesmo que em lágrimas!"

Nietzsche, provavelmente citando algum estóico, Aurora, 195.

Curiosa a impressão que temos, quando confortáveis e saudáveis, protegidos pela sociedade e circunstâncias, parecemos esquecer a natureza mutante do mundo e universo. E mesmo não a queremos.

Que tudo é mudança, tudo deve mudar. Porque a vida necessita disso, e tudo que é estático e permanente ou é Deus ou é o nada, o vazio. Na verdade ambos.

Que a saúde se tornará doença, que a juventude, velhice, que a vida, morte. E a morte, vida de novo. Que a nossa existência se concatena com o todo, a natureza.

Que apreciemos a juventude e força que a natureza nos dá, e realizemos a tarefa de viver dignamente, como homens, fiéis ao verdadeiro Eu, a centelha divina, a razão. E não como animais corrompidos. E não lamentemos a morte, a doença, o decaimento, pois essa é a natureza do mundo, que afeta a todos igualmente, e a vida se revigora através desses ciclos.

A mudança virá. Que não desperdicemos nossas vidas vivendo-as levianamente, indignamente.

quarta-feira, 13 de março de 2019

O que é o amor?

A despeito de todas as divagações poéticas ou especificidades neurofisiológicas, do ponto de vista psicológico, é onde o amor se deslinda em toda sua pureza cristalina e distinta.

O amor filial, fraternal, religioso, platônico, todos derivam de uma mesma força humana e divina e são consubstanciais em certo grau, a diferença são os meios pelos quais o amor como força primeva inocula-se na alma de um indivíduo.

Uns conhecem o amor em sua pura forma através de Deus, dos pais, da esposa, dos filhos, dos amigos, de uma ideia, etc...

O amor entre homem e mulher de que deriva a família, sustentáculo do tecido social de toda nação forte, é o que mais tem-se obscurecido com o avanço da era da escuridão tecnológica que homizia a luz da virtude em nossa civilização.

Tem-se tornado somente uma ligação sexual travestida de sentimentos indistintos ou nenhum sentimento, uma espécie de recreação supérflua, despida de qualquer significação maior que o prazer animalesco das mais baixas funções biológicas. Como respirar, dormir, comer, etc...

Aqui o homem divorcia-se da sua centelha divina, que o eleva sobre todos os outros animais, o Logos, a racionalidade, a significação, o mito.

A prática do amor moderno é desumanizante.

O amor entre homem e mulher é delicado pois deve ser construído e mantido, passadas todas as paixões, o que restam são dois humanos com visões de mundo próprias, egos distintos, e interesses que porventura colidem.

Mas se bem me lembro um aforismo de Nietzsche, "a união de homem e mulher deve ser para a criação de algo superior a eles mesmos" e nessa criação envolve-se a morte de seus egos e subjetividades anteriores, na consagração da vida e a natureza, na união de suas carnes e espíritos que se materializa no recém nascido.

Mas além desse símbolo material-espiritual que é a criança, o amor entre homem e mulher é a conexão profunda, uma flama perene de um sentimento por excelência superior que envolve todo o intelecto e coração.

Jamais será supérfluo, pois se eleva a condição de um estado de espírito, harmonia plena entre animus e anima, e conjunção das essências dos sexos, com uma metafísica própria.

Sem essa ligação inexorável não existe amor, existe uma farsa que nos querem vender hoje, em seu projeto de engenharia social e destruição das nações e tipos humanos, o amor verdadeiro é um ato de resistência e revolução contra o mundo moderno.

domingo, 7 de setembro de 2014

Wagner em Bayreuth

~ "Precisamos aprender a morrer, no sentido mais completo da palavra, pois o medo do fim é a fonte de todo egoísmo e surge sempre que o amor se extingue... Wotan se lança à altura trágica, ele quer seu declínio. Isso é tudo o que devemos aprender da história da humanidade: querer o necessário e realizá-lo." ~ pg 32

~ Quem de nós não sujou suas mãos e sua alma a serviço dos repugnantes ídolos da cultura moderna?! Quem não precisa da água purificadora, quem não escuta a voz que adverte: "Façam silêncio e sejam puros!"? Façam silêncio e sejam puros! Somente escutando essa voz poderemos adquirir essa amplitude do olhar a partir da qual contemplaremos o acontecimento de Bayreuth: e é somente nesse olhar que reside o grande futuro desse acontecimento. ~ pg42

~ Em vez de dar ouvidos a esses vãos consolos, ele suporta fixar seu olhar profundamente insatisfeito em nossa essência moderna: pouco importa que se encha de bílis e raiva se seu coração não é suficiente caloroso para ter compaixão! Malícia e escárnio seriam melhores do que se entregar, à maneira de nossos "amadores de arte", a um bem-estar enganoso e a um alcoolismo secreto! ~ pg76

~ Outrora se olhava de cima, com franca superioridade, os que lidavam com o comércio de dinheiro, mesmo quando se precisava deles; admitia-se que toda sociedade devia ter suas entranhas. Atualmente eles são o poder dominante na alma da humanidade moderna e seu componente mais ávido. ~ pg78

~ A partir de sua experiência, ele compreendeu a situação vergonhosa na qual se encontram a arte e o artista: em uma sociedade sem alma ou com alma endurecida, que se considera boa, mas que é propriamente má, arte e artista contam como séquito de escravos para satisfação de necessidades aparentes. ~ pg97

~ Mas como viviam o mito e a música em nossa sociedade moderna na medida em que não foram por ela destruídos? Uma sorte semelhante lhes foi reservada como expressão de seu misterioso vínculo: o mito foi profundamente rebaixado e desfigurado, degenerado em "conto", relegado ao domínio lúdico que dá alegria às crianças e mulheres de um povo em decadência, completamente despojado de sua maravilhosa natureza viril, grave e sagrada; a música foi conservada entre os pobres e simples, entre os solitários; ao músico alemão não foi possível se integrar com êxito ao empreendimento de luxo das artes, convertendo-se ele próprio em um conto monstruoso, hermético, repleto dos sons e signos mais comoventes, um questionador desajeitado, inteiramente enfeitiçado e necessitando de de libertação. ~ pg99

E agora, gerações do presente , é preciso que perguntem a si próprios: terá sido para vocês que tudo isso foi inventado? Vocês têm a coragem, com suas mãos sobre as estrelas dessa inteira abóbada celeste de beleza e bondade, de mostrar e de dizer: esta é nossa vida que Wagner transportou até as estrelas?

Quem são, dentre vocês, os homens capazes de interpretar a imagem divina de Wotan segundo suas próprias vidas e que se tornam, como ele, maiores na medida de seu declínio? Quem de vocês, que sabe e experimentou que o poder é mau, quer renunciar a ele? Onde estão os que, como Brünnhilde, entregarão por amor seu conhecimento e, por fim, retirarão de sua vida o conhecimento supremo: "A mais profunda dor de um amor em luto abriu-me os olhos"? E os heróis livres, sem medo, que crescem e florescem em inocente autonomia, os Siegfried, onde estão entre vocês?

Quem assim pergunta, e pergunta em vão, deverá voltar os olhos em busca do futuro: e caso seu olhar venha a descobrir, em algum longínquo lugar, aquele "povo" ao qual será dado ler nos signos da arte wagneriana sua própria história, compreenderá por último, também, o que Wagner será para esse povo: ele não pode ser para nós todos, talvez como tenha sido nossa impressão, o vidente de um futuro, mas sim o intérprete e transfigurador de um passado. ~ pg. 140-141

Wagner em Bayreuth, F. Nietzsche, Zahar editora.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Viver perigosamente

Mais de uma vez perguntei-me se era simples acaso o fato de Hitler e Mussolini tantos pontos em comum e tantos rasgos semelhantes em seus destinos. Ambos interessavam-se pela arquitetura, ambos apreciavam o filósofo Nietzsche e ambos suportavam o trágico destino da solidão humana. Nenhum dos dois teve um verdadeiro amigo; estavam rodeados de muitos lacaios e de muito poucos homens. Recordava duas citações de Nietzsche, que tinha ouvido de Hitler e de Mussolini. Teriam escolhido, por acaso, como lemas para suas vidas?

Acaso tento fazer minha felicidade?
Não; tento fazer minha obra.

E as breves mas significativas palavras:

Viver perigosamente.

Otto Skorzeny, Memórias, Capítulo 34, Pg. 317, Tomo II, Editora Bibliex.

Visão nietzscheana

Durante aqueles dias, nós, soldados alemães, chegamos a compreender muitas coisas. Tinha passado a época dos estados nacionais do rígido nacionalismo. Agora deveríamos procurar objetivos mais elevados. Todos nós, antigos inimigos e amigos de sempre, precisávamos encontrar uma solução "européia". Não devíamos renunciar a nossos ideais e sim projetá-los num plano mais nobre. A idéia "européia" devia emergir espontaneamente do caos reinante. Era evidente que esta idéia estava mais arraigada naqueles que estiveram animados de um apaixonado amor à pátria, no tempo em que procuravam a unidade da Europa e deram provas de que estavam dispostos a sacrificar-se por ela: os voluntários que lutaram nas fileiras das Waffen-SS.

Otto Skorzeny, Memórias, Capítulo 30, Pg. 256, Tomo II, Editora Bibliex.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Do filho do matrimônio

"Tenho uma pergunta para ti só, meu irmão. Arrojo-a como uma sonda à tua alma, a fim de lhe conhecer a profundidade.

És moço e desejas filho e matrimônio. Eu, porém, pergunto. Serás tu homem que tenha o direito de desejar um filho?

Serás tu vitorioso, o vencedor de ti mesmo, o soberano dos sentidos, o dono das tuas virtudes?

É isso o que eu te pergunto.

Ou será que falam do teu desejo a besta e a necessidade física, ou o afastamento, ou a discórdia contigo mesmo?

Eu quero que a tua vitória e a tua liberdade suspirem por um filho. Deves erigir monumento vivente à tua vitória e à tua libertação.

Deves construir qualquer coisa que te seja superior.

Primeiro que tudo, porém, é preciso que te hajas construído a ti mesmo, retangular de corpo e alma.

Não deves só reproduzir-te, mas exceder-te! Sirva-te para isso o jardim do matrimônio!

Deves criar um corpo superior, um primeiro movimento, uma roda que gire sobre si; deves criar um criador.

Matrimônio: chamo assim à vontade de dois criarem um que seja mais do que aqueles que o criaram. O matrimônio é o respeito recíproco: respeito recíproco dos que coincidem em tal vontade.

Seja este o sentido e a verdade do teu matrimônio; mas isso a que os que estão demais, os supérfluos, chamam matrimônio, isso como se há de chamar?

Ai! Que pobreza de alma entre dois! Que imundície de alma entre dois! Que mísera conformidade entre dois!

A tudo isso chamam matrimônio, e dizem que contraem estas uniões no céu!

Pois bem! Eu não quero esse céu dos supérfluos. Não; eu não quero essas bestas presas com redes divinas!

Fique-se também por lá bem longe de mim esse Deus que vem coxeando abençoar aquilo que não uniu!

Não vos riais de semelhantes matrimônios!

Que filho não teria razão para chorar por causa de seus pais?

Certo homem pareceu-me digno e sensato para o sentido da terra, mas quando vi a mulher dele, a terra pareceu-me moradia de insensatos.

Sim; queria que a terra se convulsionasse quando se acasalam um santo e uma pata.

Tal outro partiu como herói em busca de verdades e não trouxe por colheita senão uma mentira engalanada. Chamam a isso o seu matrimônio.

Este era frio nas suas relações e escolhia ponderadamente; mas de uma só vez transtornou para sempre a sua sociedade. A isso chamam o seu matrimônio.

Aquele procurava uma servente com as virtudes de um anjo; mas daí a pouco tornou-se servente de uma mulher, e agora precisava ele tornar-se anjo.

Vejo agora todos os compradores muito senhores de si e com olhos astutos; mas até o mais astuto compra a sua mulher às cegas.

A muitas loucuras pequenas chamais amor. E o vosso matrimônio termina muitas loucuras pequenas para as tornar uma loucura grande.

O vosso amor à mulher e o amor da mulher pelo homem, ó! seja compaixão para deuses dolentes e ocultos! Duas bestas, porém, quase sempre se adivinham.

O vosso melhor amor, contudo, ainda não é mais do que uma imagem extasiada e um ardor doloroso. É um facho que vos deve iluminar para caminhos superiores.

Um dia deverá o vosso amor elevar-se acima de vós mesmos! Aprendei, pois, primeiro a amar! Por isso vos foi preciso beber o amargo cálice do vosso amor.

Existe amargura no cálice do melhor amor; assim vos faz desejar o Super-homem; assim tendes sede do criador.

Sede do criador, seta e desejo do Super-homem; diz-me, meu irmão, é essa a tua vontade do matrimônio?

Santa é para mim tal vontade, santo tal matrimônio"

Assim falava Zaratustra.

NIETZSCHE, Assim falou Zaratustra, Primeira Parte, Do filho do matrimônio.

sábado, 21 de julho de 2012

Vom Nutzen und Nachteil der Historie für das Leben

Tradicionalismo: embota os sentidos do homem, estiola a vida mesma, muito embora provê raízes ao homem e um senso de pertencimento, sacraliza o passado seja ele bom ou não, e conserva por vezes coisas ou valores que não deveriam ser conservados, pontualmente. Tem sua utilidade, porém não deve dominar a sociedade.

Monumentalismo: Alimenta grandes almas e suas visões, num período de ostracismo, desespero ou cultura artificial, porém ao inflamar o homem e suas visões contra o mundo ou época, cega-o perante as circunstâncias e os métodos de sua situação hodierna, tenta-se recriar as causas para dar azo aos mesmos efeitos de outrora, reviver esses 'efeitos' artificialmente.

História Crítica: Libera o homem do jugo do passado 'ruim', porém libera-o do 'bom' passado outrossim, ata-o a seus contemporâneos, torna-o vil e injusto com a história, julgando o passado em função do presente, julgam... como se para isso tivessem autoridade... essa suposta 'objetividade' e 'frieza' com as quais se obrigam os historiadores modernos, esses operários coletores de documentos que não entendem e não podem entender o que estudam pois não está em sua natureza entender os feitos cometidos por homens de natureza diversa e especial.

A história não existe, existe sim um caos de circunstâncias, e motivos diversos brotados nos corações dos homens, completamente obscuros, mormente aleatórios e movimentados por quaisquer circunstâncias, não nos é permitido desvendar tais motivos por documentos.

A história não existe o que existe é um encadeamento de fatos projetados na realidade por motivos diversos incognitos, esse encadeamento é engendrado na cabeça dos historiógrafos, que assim pretender dar um caráter linear e coerente a história, o 'sentido histórico'.

Não existem leis históricas, essas leis se aplicam apenas as massas e as camadas inferiores da humanidade, são leis movidas a fome e ignorância. O homem excelente escapa a essas leis.

Não existe processo universal ou qualquer sentido histórico, esses conceitos absorvidos e operantes no hegelianismo. Um homem abandonar-se ao processo histórico universal significa rejeitar sua condição mesma humana volitiva e potente, ele se reduziria a ser parte da massa, um animal domesticado, eis o porque o entendimento histórico "científico" hegeliano-marxista é promovido nas universidades do mundo pelos Estados em detrimento de outros entendimentos.

O Estado é um meio, uma ferramenta, o homem não existe em função do meio, e sim o inverso.

Deus não existe... Ou existe? Provavelmente sim, porém a volição divina reduz-se as suas leis naturais(matemática, física), um Deus que não quer muito mais que essas leis e que não opera, não merece ser posto na equação das considerações hodiernas, o trabalho dele está feito, ele não nos concerne mais... A não ser artisticamente.

A questão niilista "para quê?" revela a mentalidade servil daqueles que necessitam de um mestre, orfãos de um poder. Responde-se isso com a Vontade Suprema inata. Não há nada atrás do homem, nada a frente, o sentido de si mesmo está em sua carne, sangue, ossos, cérebro e vontade, o sentido do homem é outorgado de si a si, nada mais.

Não há causa final, se houvesse já teria sido alcançada, o que existe é o infinito, in regressus e progressus, no infinito tudo aconteceu e voltará a acontecer, eternamente.

A história não existe. A utilidade da história para a vida transmuta-se apenas pela arte, a história torna-se então um modo de afirmação da vida. O viver supra-histórico, sem a arte, a história tem muito pouco valor para o homem.

Somente porque a massa adotou uma idéia ou religião durante muito tempo isso não depõe a favor do seu criador, pelo contrário.

O super-homem já surgiu em várias partes do globo, em diversas épocas, em diversas culturas. Célere como o raio, porém o trovão das suas gestas ainda ecoa.

O super-homem é desejável.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Ócios e ociosidade

Existe uma selvageria própria de pele-vermelha, portanto, particular ao sangue índio, na maneira como os americanos aspiram ao ouro; e o seu frenesi no trabalho – o verdadeiro vício do Novo Mundo- começa já a barbarizar, por contágio a velha Europa, dizimando uma estranha ausência de espírito.
Tem-se agora vergonha do descanso; quase se experimentaria um remorso com a reflexão mais demorada. Pensa-se de relógio na mão, mesmo quando se está a almoçar, com um olho no correio da bolsa; vive-se permanentemente como alguém que tem medo de “perder” alguma coisa. “Mais vale agir do que não fazer nada”, eis ainda um desses princípios de carregar pela boca que correm o risco de vibrar o golpe de misericórdia a qualquer cultura, e qualquer gosto superior.
Este frenesi no trabalho dobra os afiados de todos os modos; pior, enterra o próprio sentimento desta forma, o senso melódico do movimento; as pessoas tornam-se cegas e surdas a todas as suas harmonias. A prova está na pesada precisão que se exige agora em todas as situações em que o homem quer estar honestamente diante do seu semelhante, nas suas relações com amigos, mulheres, pais, filhos, patrões, alunos, guias e príncipes; tem-se falta de tempo, tem-se falta de força para consagrar à cerimônia, os meneios da cortesia, o espírito da conversa, e o ócio de uma maneira geral.
Uma vez que a vida, tornada caça ao lucro, obriga o espírito a esgotar-se sem repouso no jogo de dissimular, de iludir, ou de prevenir o adversário; a verdadeira virtude consiste agora em fazer uma coisa mais depressa do que um outro. Dessa forma, só em raras horas é que as pessoas se podem permitir ser sinceras: e nessas horas, está-se tão cansado que se aspira não somente a “deixar correr” mas a estender-se pesadamente a deitar-se.
É esta inclinação que dá o tom da correspondência agora; e o estilo e o espírito das castas, serão sempre o verdadeiro “sinal do tempo”. Se ainda se encontra prazer na sociedade e nas artes, é um prazer do gênero daqueles que podem encontrar os escravos mortos de trabalho. Oh! Como alegram-se por pouca coisa essa gente do momento, com ou sem cultura, como é modesta nas suas “alegrias”! Que vergonha a suspeita que atraem, cada vez mais severamente, sobre si! Todos os dias o trabalho domina mais e mais a consciência em seu proveito: o gosto da alegria chama-se já “necessidade de descanso”; começa a corar de si próprio. “temos de fazer isto em função da saúde”, diz-se às pessoas que vos surpreendem em uma volta pelo campo.
Neste ritmo as coisas poderão ir, rapidamente, tão longe que não se ousará mais ceder, sem desprezo por si próprio e sem experimentar remorso ao gosto pela vida contemplativa, ao desejo de passear em companhia de pensamentos e de amigos. Pois, antigamente, a maneira era inversa: era o trabalho que sofria de má consciência.
Um homem bem nascido escondia o seu trabalho, se necessidade o constrangia a fazer um. O escravo trabalhava esmagado pelo sentimento de fazer alguma coisa desprezível: “fazer” já o era por si só desprezível. “Somente há nobreza e honra no otium (ócio) e no bellum (guerra)”, assim falava o preconceito antigo!

NIETZSCHE, F. Gaia Ciência. São Paulo: Martin Claret, 2004, p. 168-169.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Fábricas são prisões




"Tenhamos preguiça para tudo, menos para amar e beber, menos para ter preguiça" ~ Lessing

Talvez haja um dia do julgamento final, e talvez ele aconteça dia após dia, talvez seja a consciência de alguns um juiz mais severo e implacável que o próprio Deus, este encerra em si a misericórdia e compaixão, e por vezes ignora muitas de nossas ações. Não a consciência, em relação a nós ela é onisciente, e perscruta e pesa cada uma de nossas ações ou inações, cada minudência de nossos pensamentos, nada escapa a seu crivo.

Curioso notar é o modo como a consciência pede a conta de nossa vida, e eu constato que necessariamente isso acontece no período em que você deita-se para dormir e seu cérebro alegadamente não vos deixa descair a tal sono. Então você revolve e rumina e considera tudo o que fizeste durante o dia, um tipo de meditação do que se passou e "briefing" do próximo dia, não surpreende que assim seja, pois esse momento antes do sono é o mais sóbrio do homem, geralmente ele está livre de paixões e sensações e nada incendeia seus sentidos distorcendo seus julgamentos como mormente acontece ao longo do dia, ali, na alcova sombria, ele está só consigo mesmo.

Possa esse ter sido um simplório método de a natureza fazer o homem ouvir a seu próprio espírito, à despeito do barulho e paixões cotidianas que o fazem por vezes trair a si mesmo? Ignoro. Mas sei que de todo o dia, essa é a hora mais cristalina à percepção humana, que poderia ser correlata a hora mais fria do dia, quando o homem se levanta, pouco antes do arrebol.

Portanto, cumpre ir-se deitar não ao rebate do sono pesado, mas sim ser conduzido ao leito pela delicada mão do leve sono, para que tenha lugar o sopeso da consciência.

Sendo reconhecido esse o método pelo qual nossa consciência nos chama a nós mesmos, não é insensato que muitos queiram ignorá-lo, e pretender que ele não exista. Afinal é sempre excruciante que nossa própria essência fique lembrando-nos constantemente que os rumos que escolhemos para nossas vidas é errado e contrário as nossas inclinações. Pois muitas vezes convém perdermo-nos nos objetivos e aparências que construímos perante a sociedade, do que por tudo a perder por ser fiel a si mesmo.

Status, poder, e sexo. É o que frequentemente a sociedade oferece em troca dessa abnegação, ao homem de engenho é apenas isso o que se lhe oferece em troca de matar a sua inata natureza. É costumado entender que essa obliteração do espírito desfralda-se no ofício escolhido para realizar-se pelo resto de vida que lhes restam, a pobreza(ou melhor, não-opulência) resultante de serviços considerados como sem glamour, charme, ou belos salários é anátema ubiqua. E querendo escapar a esse opróbrio e ao mesmo tempo ao peso da consciência, muitos iludem a si mesmos, persuadindo-se do valor de seu ofício em relação a eles próprios. Uma bela mentira, que precisa ser contada, considerando nossa sociedade de massa.

Visitando qualquer escritório em qualquer parte desse país, não encontrarás neles, um indíviduo que não é decerto muito feliz e contente com sua colocação, do superintendente ao mais baixo estagiário, a ditadura do sorriso... Essa empulhação social deve-se mais a necesssidade das pessoas de enganarem-se a si, do que mostrar auto-suficiência e escolhas acertadas aos outros. Muitos, buscando glória e status ignoram o chamado da natureza, mas é correto fazê-lo? A alguns a natureza soí impelir a vida de pastoreira, como zagal pelas colinas plácidas, guardando e fazendo florescer a ruminante grei, a outros, impelem-nos ao caminho do soldado vertendo o sangue de ígneos reflexos em renhidas batalhas, à maioria das mulheres, a natureza chama a maternidade, ao governo do lar e manutenção da unidade familiar... porém nem sempre a natureza chama os homens ao bom caminho, e há alguns até que nascem para serem maus. Pois o "mal" é tão natural quanto o "bem", os gregos e principalmente Aristóteles, consideravam como bom, algo(ou alguém) que faz aquilo que foi criado para fazer, e mal, o contrário, em parte advém dessa noção de organização o método científico, método esse que garantiu a supremacia intelectual e bélica do ocidente, dos tempos helênicos até aos hodiernos.

Sabemos nós qual é a paga de se obliterar a natureza, pois atitudes assim nunca vão sem resposta, inquietação, angústia, depressão, e por fim, morte... O trabalho não seria tão inconveniente, nem um estorvo na vida de muitos, caso tivesse um expediente curto, digamos 4 horas...




É o que sugeriu o socialista francês Paul Lafargue, estruturando a metafísica do trabalho intenso como essencialmente escrava, propriamente contrária as artes e lazeres exercidos pelos aristocratas, Esparta e Atenas exemplos conspícuos, assinalando que em Grécia antiga, o labor era deixado aos escravos e que somente cidadãos degradados vendiam seu trabalho a outrem.

"O cidadão que outorga seu labor em troca de dinheiro rebaixa-se ao nível de escravos" ~ Cícero

Donde que, os modernos, trabalhadores constantes, porém de espírito obtuso, fazem saber ao mundo sua oblíquidade pelo modo como gastam o fruto de seu suor, a cultura que eles patrocinam, a religião que aderem, a arquitetura grotesca e abjeta de seus "paços", o que é interessante aqui notar, pois Nietzsche dissera que a arquitetura é a eloquência do poder, vemos nós como o poder dessa "elite" fala, basta dar uma volta em qualquer bairro "nobre" brasileiro...

E no fim, é muito questionável o valor do dinheiro e poder, especialmente em nossa época, a anulação de si mesmo, o esfarrapar-se no trabalho, e esvair sua juventude em labor contínuo, apenas pelo poder em si, e a satisfação copiosa dos desejos sensuais, em particular, ao homem que possui algum intelecto.

Porém justifica-se, se quiser-se pôr adiante uma alta civilização e vai buscar os recursos necessários nos meios econômicos. Não seria justo que os homens mais ricos fossem os mais merecedores dessas riquezas outrossim? E que esse refugo humano representado pela elite econômica brasileira fosse devidamente limpado e terminasse de existir?




Piegato dal telaio che tu stesso hai creato
Preso na situação que você mesmo criou
Agghiacciante riflesso di un sistema malato
Triste exemplo de um sistema doente,
Guarda il tuo futuro, giace morto a terra
Observa teu futuro, jaz morto no chão,
Accoltellato alla gola dal capitalismo!
Degolado pelo capitalismo!

Distruggi il lavoro, credi nei tuoi desideri!
Destrua o trabalho, crê nos teus desejos!
Distruggi il lavoro, vivi senza fare niente!
Destrua o trabalho, viva sem fazer nada!

Volti lacerati, dinamiche di sfruttamento
Rostos lacerados, dinâmica de exploração,
Miseri aspetti della quotidianità
Expectativas miseráveis do cotidiano,
Magri stipendi, assenza di tutele, alienazione, insicurezza!
Salários magros, nenhuma cobertura, alienação, insegurança!
Riscopri le virtù della pigrizia!
Redescubra a virtude da preguiça!

Derubato dalla vita osservi impotente
Desancado pela vida, observa impotente,
il misero crollo dei tuoi sogni
O mísero definhamento dos teus sonhos
Il tuo sorriso ucciso giorno per giorno
O teu sorriso assassinado, dia após dia,
da un lavoro inutile come le spiegazioni
Por causa de um emprego inútil,
Fabbriche e prigioni!
Fábricas são prisões!

Vaje ner culo al lavoro, mandace qualcun' altro
Manda aos diabos o trabalho, que faça-o outrem.
Vai avanti, ridi in faccia al datore di lavoro
Não temas, ria na cara do patrão,
Ricorda: rubare è divertente!
E lembre-se: roubar é divertido!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Abstrações de "Cavalgar o Tigre"




Sensação ativa. Existência ativa.

A receptação das sensações em concerto com o Eu transcendente e a consciência de si mesmo, a derrocada da frivolidade material e passional, o não uso de parâmetros sub-intelectuais para definir a individualidade, carne, paixões, emoções, são fatores que turvam o claro entendimento da consciência como ela é, e assim, despido dessas vendas, alguém pode buscar sinceramente o conhecimento de si mesmo, ante a dissolução e confusão de valores, sinais, e estruturas morais e filosóficas do homem moderno. Esquizofrenia coletiva, outrossim narcisismo, consultar o Sátiro.

A busca de si mesmo através de experiências e testes de força, de caráter, espirituais e físicos, que ao fim e ao cabo, não são mais que um e o mesmo.

Ter a honestidade de fazer as grandes perguntas que estruturam a existência intelectual e física do homem, ter a capacidade para buscar suas respostas, desenvolver o caráter, força, e resiliência para acreditar nas próprias respostas, estas, estando de acordo com as leis do próprio espírito individual, o eu transcendente ou consciência de si mesmo, termos diferentes para denominar o mesmo. Pois se na matemática a verdade não é subjetiva, no reino da consciência é propriamente o contrário, e mormente, aqueles que são fiéis a si mesmos e suas cosmovisões impolutas por tangências periféricas sub-intelectuais já apontadas acima, são fiéis a própria verdade metafísica, e atingem a vitória transcendente, e não raramente, também a vitória material.

"Se conheceis o inimigo e vós mesmos, não deveis temer o resultado de cem batalhas. Se conheceis a vós mesmos, mas não conheceis o inimigo, para cada vitória alcançada sofrereis uma derrota. Se não conheceis nenhum dos dois, sereis sempre derrotado." ~ Sun Tzu

Amor fati

Segundo Karl Jaspers, não apenas a obediência passiva a um destino predeterminado, conhecido, calculável. Mas a ciência que, em face de cada experiência e tudo o que for ambíguo, incerto e perigoso na vida de um indivíduo, o mesmo jamais desviar-se-á do caminho imposto por seu próprio espírito. O fator essencial nesse tipo de atitude, é a confiança transcendente da qual dimana intrepidez e segurança perante a vida.

http://www.amazon.com/Ride-Tiger-Survival-Manual-Aristocrats/dp/0892811250

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Vontade transcendente




Há dois caminhos, por onde os homens podem chegar a ser ricos e considerados: um é o das letras, o outro o das armas. Eu, pela inclinação que tenho para as armas, vejo que nasci debaixo do influxo do planeta Marte, de forma que me é forçoso seguir por esse caminho; por ele hei de ir malgrado a toda a gente, e debalde vos cansareis em persuadir-me a que não queira o que os céus querem, o que a fortuna ordena, o que pede a razão, e, sobretudo, o que a minha vontade deseja; pois sabendo, como sei, os inúmeros trabalhos que tem a cavalaria andante, sei também os bens infinitos que com ela se alcançam, e sei que a senda da virtude é muito estreita, e o caminho do vício largo e espaçoso, que os seus fins e paradeiros são diferentes, porque o do vício, dilatado e espaçoso, acaba na morte, e o da virtude, apertado e íngreme, acaba em vida, e não em vida que tenha termo, mas na vida eterna, e sei como disse o nosso grande poeta castelhano:

Conduz-nos esta aspérrima vereda
da imortalidade ao alto assento,
aonde não chega quem dali se arreda.*


SAAVEDRA, Miguel de Cervantes, O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha, Capítulo VI, Tomo II.

*Garcilaso, Elegia, I.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

The average man


"Ladies and Gentlemen! You've read about it in the papers! Now witness, before your very eyes, that most rare and tragic of nature's mistakes! I give you: the average man.

Physically unremarkable, it instead possesses a deformed set of values. Notice the hideously bloated sense of humanity's importance. Also note the club-footed social conscience and the withered optimism. It's certainly not for the squeamish, is it?

Most repulsive of all, are its frail and useless notions of order and sanity. If too much weight is placed upon them... they snap.

How does it live, I hear you ask? How does this poor pathetic specimen survive in today's harsh and irrational environment? I'm afraid the sad answer is, "Not very well".

Faced with the inescapable fact that human existence is mad, random, and pointless, one in eight of them crack up and go stark slavering buggo! Who can blame them? In a world as psychotic as this... any other response would be crazy!"

Joker,
Batman: The Killing Joke (1988)

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ausência de nobres maneiras



Os soldados e comandantes mantém ainda entre eles relações de natureza superior às que existem entre operários e patrões. Por enquanto, pelo menos, qualquer civilização de tipo militar encontra-se bem acima daquelas a que se dá o nome de industriais: estas, sob o seu aspecto atual, são a mais vulgar forma de existência que foi possível ver até hoje. Elas são regidas somente pela necessidade: quer-se viver e se vê obrigado a vender-se, mas despreza-se aquele que explora esta necessidade e que compra o operário. Singularmente, existe menos dificuldade em se submeter a pessoas poderosas que inspiram o receio, mesmo o terror, aos tiranos e aos comandantes de exército, do que a desconhecidos sem interesse, como o são todos os magnatas da indústria. Normalmente, o operário só vê no patrão um cão astuto, um vampiro que especula com todas as misérias e cujo nome, pessoa, costumes e reputação lhe são perfeitamente indiferentes. Os fabricantes e os grandes negociantes mostraram provavelmente até aos nossos dias a falta desses sinais que distinguem a raça superior, que tornam interessante uma personalidade; se tivessem tido, no olhar e no gesto, a distinção da nobreza hereditária, não haveria talvez socialismo das massas. Uma vez que as massas, no fundo, estão prontas a qualquer espécie de escravidão, desde que o chefe prove incessantemente sua legitimidade, o seu direito a comandar de nascença pela nobreza da forma. O homem mais vulgar sente que a distinção não se improvisa e que deve reverenciar nela o fruto de longos períodos do tempo; a ausência de forma e a clássica vulgaridade dos fabricantes de grandes mãos vermelhas e gordas, levam, pelo contrário, a pensar que foram unicamente o acaso e a sorte que colocaram o patrão acima do outro: muito bem! Pensa ele consigo, experimentemos também o acaso e a sorte! Lancemos os dados!... E inicia-se o socialismo.

F. W. Nietzsche, Gaia Ciência, Livro Primeiro, Aforismo 40, Tradução: Jean Melville

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Nietzsche



Das fulgurantes chamas
Que inflamam a vida,
À vontade de poder clama
A palma da fraqueza já vencida!

Ressurgindo como aurora imprevista
Vai devastando o espírito,
Elevando-se acima da vista;
Apagando o que outrora foi escrito!

Apossando-se cada vez mais forte.
Dos esquálidos executando a sorte,
Pela violência extrema da natureza
Impondo-se por cruel nobreza.

Voando acima da mediocridade
Que se encerra no mundo moderno.
Destruindo com ferocidade,
A vileza do inimigo interno!

E ri-se diante do perigo!
E da morte é notável amigo!
Este vagalhão que à alma assalta,
Este titã que se exalta!

Vibrando violentos golpes
Ao destino pachorrento!
Da terra a frementes galopes
Afasta-se como o vento!

Rasgando o céu fulgurante!
Estilhaçando num instante!
Os matizes da hipocrisia
Que se mesclam em democracia.

A vontade que em mim ruge,
Do interno peito ressurge!
Que me toma de todo
E alça-me do lodo!

A vós águia destruidora!
Que da altura dos píncaros nevados,
Contemplou inferiores estados
Da mentira avassaladora!

E no ar rarefeito
Que sempre respiramos,
Em nosso caminho sempre estreito
Tudo nos parece humano, demasiado humano...


Tenaglia


quinta-feira, 3 de junho de 2010

Chamfort

Que o conhecedor do homem e da multidão, como foi Chamfort, que se colocou ao lado da multidão em vez de ficar à parte, em uma posição de defesa e de renúncia filosófica, é algo que só posso explicar da seguinte forma, que existia nele um instinto que era mais forte do que a sua sabedoria e que nunca foi satisfeito: o ódio pela nobreza de sangue, um ódio antigo, talvez herdado de sua mãe, que se podia explicar muitíssimo bem nela, e para ele sagrado por piedade filial; uma espécie de rancor que datava da sua infância e que nele esperava a hora de vingar a mãe. E eis que a vida e o seu gênio, e que, sobretudo talvez, o sangue do pai que corria em suas veias, o levaram a arregimentar-se durante longos e longos anos, nas fileiras dessa nobreza e a sentir-se seu igual. Mas acaba por não poder continuar a suportar o seu próprio aspecto, o "aspecto" do velho homem sob o velho regime; e foi dominado por violenta paixão de penitência que o obriga a vestir o traje da plebe como uma espécie de camisa de cilício!


O seu pecado tinha consistido em negligenciar o ódio. Se tivesse permanecido um pouco mais filósofo, a revolução teria perdido o seu espírito, a sua aresta trágica, o seu aguilhão mais acerado que a caráterizaram; seria considerada como um acontecimento muito mais estúpido e seduziria menos os espíritos. Mas o ódio e a vingança de Chamfort educaram uma geração inteira: as pessoas mais sublimes passaram por sua escola. Considera-se que Mirabeau olhava Chamfort de baixo, como um seu superior, mais completo, de quem esperava ou sofria os impulsos, os conselhos, as sentenças... Mirabeau que, na ordem humana, ultrapassa tão longe os primeiros de todos os grandes homens de ontem e de hoje! Não será singular que, apesar de tal amigo, apesar de semelhante advogado - dispomos das cartas que ele recebia de Mirabeau - o mais espiritual dos moralistas tenha permanecido alheio aos franceses, tal como Sthendal, que tinha talvez os ouvidos e os olhos mais ricos de pensamentos entre os franceses deste século? Será porque havia em Sthendal demasiados elementos ingleses e alemães para que o parisiense o suportasse?

Chamfort, esse que é um ser rico em profundezas e em interioridades, o homem sombrio, sofredor, ardente, um pensador que via no riso um remédio necessário contra a vida e que se julgava quase perdido no dia em que não tinha rido, pareceria mais italiano do que francês, parente de Dante e de Leopardi! Conhece-se as suas últimas palavras: "Ah, meu amigo", disse ele a Sieyès, "vou-me finalmente embora deste mundo, onde é necessário que o coração se parta ou se endureça...". Estas não são certamente as palavras de um francês moribundo.


Nietzsche, F.W., Gaia Ciência, Livro Segundo, Aforisma 95.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Da formação universal [Parte 2]

A segunda fonte é o medo da repressão religiosa. Nisso reside o medo contraposto: uma desmundanização total por meio da religião, como se esta fosse a única satisfação possível da necessidade metafísica. Nisso reside o profundo instinto de que o cristianismo, em sua raíz, é hostil a toda cultura e, portanto, encontra-se necessariamente vinculado à barbárie.

Friedrich Nietzsche, Sabedoria Para Depois de Amanhã, Inverno de 1870 - 71 - Outono de 1872

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Da formação universal [Parte 1]

A formação universal é apenas um estágio prévio do comunismo: por esse caminho, a formação se enfraquece tanto que não pode conceder mais nenhum privilégio. Raramente é um remédio contra o comunismo. A formação mais universal, ou seja, a barbárie, é justamente o pressuposto do comunismo. A formação "de acordo com a época" transforma-se no extremo da formação " de acordo com o momento: isto é, a compreensão bruta da utilidade momentânea. Vê-se unicamente na formação aquilo que traz utilidade: desse modo, logo se confundirá aquilo que traz utilidade com a formação. A formação universal transforma-se em ódio a verdadeira formação. A cultura já não é mais a missão dos povos, mas o luxo, a moda. Não ter necessidades é, para o povo, a maior infelicidade, explicou certa vez Lassalle. Eis a razão para as associações para a formação dos trabalhadores, cuja tendência, como em várias ocasiões me foi descrito, é a de criar necessidades. Que se exponha ao economista nacional a parábola de Cristo, sobre o rico gastador e o pobre Lázaro, justamente ao contrário: o gastador ganha o regaço de Abrão. Portanto, a tendência para a maior universalização possível da formação tem sua fonte numa completa secularização, numa subordinação da formação, como meio, ao lucro, a felicidade terrena entendida cruamente.

Ampliação para dispor do maior número possível de funcionários inteligentes. Influência de Hegel.

Friedrich Nietzsche, Sabedoria Para Depois de Amanhã, Inverno de 1870 - 71 - Outono de 1872