Mostrando postagens com marcador Aristocracia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Aristocracia. Mostrar todas as postagens

domingo, 15 de abril de 2012

Dona Rodríguez



— Assim creio que da gentil e agradável presença de Vossa Mercê não se podia esperar senão resposta cristã. É pois o caso que, ainda que Vossa Mercê me vê sentada nesta cadeira, e aqui no meio do reino de Aragão, e com trajos de dona aniquilada e escarnecida, sou natural das Astúrias de Oviedo e pela minha linhagem passam muitas das melhores daquela província; mas a minha triste sorte e o descuido de meus pais, que empobreceram antes de tempo, sem saber como nem como não, trouxeram-me à corte de Madrid, onde, por bem da paz e por escusar maiores desventuras me arranjaram o ser donzela de lavor de uma senhora principal; e quero que Vossa Mercê saiba que em costura de roupa branca ninguém me leva a melhor. Meus pais deixaram-me servir e voltaram para a sua terra, e dali a poucos anos foram decerto para o céu, porque eram bons cristãos católicos. Fiquei órfã e atida ao mísero salário e às angustiadas mercês que a tais criadas se costuma dar em palácio; e, a este tempo, sem que eu desse ocasião a isso, enamorou-se de mim um escudeiro da casa, homem já de idade, barbudo, apessoado* e, sobretudo, tão fidalgo como El-Rei, porque era montanhês. Não tratamos tão secretamente os nossos amores, que não chegassem ao conhecimento de minha ama, que, por escusar dizes tu, direi eu, nos casou em paz e à face da Santa Madre Igreja Católica Romana, e desse matrimônio nasceu uma filha, para acabar com a minha ventura, se alguma tinha, não porque eu morresse de parto, que o tive direito, mas porque, dali a pouco, morreu meu esposo de uma aflição que, se eu tivesse agora ensejo para lha contar, sei que Vossa Mercê se admiraria.

*Alarde de nobreza nos montanheses por não terem misturado seu sangue com os semitas.

CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de; O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Tomo II, Capítulo XLVIII.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Ócios e ociosidade

Existe uma selvageria própria de pele-vermelha, portanto, particular ao sangue índio, na maneira como os americanos aspiram ao ouro; e o seu frenesi no trabalho – o verdadeiro vício do Novo Mundo- começa já a barbarizar, por contágio a velha Europa, dizimando uma estranha ausência de espírito.
Tem-se agora vergonha do descanso; quase se experimentaria um remorso com a reflexão mais demorada. Pensa-se de relógio na mão, mesmo quando se está a almoçar, com um olho no correio da bolsa; vive-se permanentemente como alguém que tem medo de “perder” alguma coisa. “Mais vale agir do que não fazer nada”, eis ainda um desses princípios de carregar pela boca que correm o risco de vibrar o golpe de misericórdia a qualquer cultura, e qualquer gosto superior.
Este frenesi no trabalho dobra os afiados de todos os modos; pior, enterra o próprio sentimento desta forma, o senso melódico do movimento; as pessoas tornam-se cegas e surdas a todas as suas harmonias. A prova está na pesada precisão que se exige agora em todas as situações em que o homem quer estar honestamente diante do seu semelhante, nas suas relações com amigos, mulheres, pais, filhos, patrões, alunos, guias e príncipes; tem-se falta de tempo, tem-se falta de força para consagrar à cerimônia, os meneios da cortesia, o espírito da conversa, e o ócio de uma maneira geral.
Uma vez que a vida, tornada caça ao lucro, obriga o espírito a esgotar-se sem repouso no jogo de dissimular, de iludir, ou de prevenir o adversário; a verdadeira virtude consiste agora em fazer uma coisa mais depressa do que um outro. Dessa forma, só em raras horas é que as pessoas se podem permitir ser sinceras: e nessas horas, está-se tão cansado que se aspira não somente a “deixar correr” mas a estender-se pesadamente a deitar-se.
É esta inclinação que dá o tom da correspondência agora; e o estilo e o espírito das castas, serão sempre o verdadeiro “sinal do tempo”. Se ainda se encontra prazer na sociedade e nas artes, é um prazer do gênero daqueles que podem encontrar os escravos mortos de trabalho. Oh! Como alegram-se por pouca coisa essa gente do momento, com ou sem cultura, como é modesta nas suas “alegrias”! Que vergonha a suspeita que atraem, cada vez mais severamente, sobre si! Todos os dias o trabalho domina mais e mais a consciência em seu proveito: o gosto da alegria chama-se já “necessidade de descanso”; começa a corar de si próprio. “temos de fazer isto em função da saúde”, diz-se às pessoas que vos surpreendem em uma volta pelo campo.
Neste ritmo as coisas poderão ir, rapidamente, tão longe que não se ousará mais ceder, sem desprezo por si próprio e sem experimentar remorso ao gosto pela vida contemplativa, ao desejo de passear em companhia de pensamentos e de amigos. Pois, antigamente, a maneira era inversa: era o trabalho que sofria de má consciência.
Um homem bem nascido escondia o seu trabalho, se necessidade o constrangia a fazer um. O escravo trabalhava esmagado pelo sentimento de fazer alguma coisa desprezível: “fazer” já o era por si só desprezível. “Somente há nobreza e honra no otium (ócio) e no bellum (guerra)”, assim falava o preconceito antigo!

NIETZSCHE, F. Gaia Ciência. São Paulo: Martin Claret, 2004, p. 168-169.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Amor é aristocrático



"Dante meets Beatrice at Ponte Santa Trinita" ~ Henry Holiday, 1883

O amor é aristocrático, não encontrá-lo-ás em qualquer esquina, e o fato dele estar na boca dessas almas vãs é um insulto mesmo a ordem divina que transmuta-se em ordem natural no nosso efêmero plano de existência.

O amor em nosso espírito nada mais é que o sopro celestial dos Deuses ciciando em nossas orelhas o comando marcial que seguimos docilmente, imperativos desse tirano que mormente nos arrasta em seus arroubos.

Arroubos que ribombam o troar magnífico de todas as potências ocultas ao homem. D'outro modo, como se inteligiriam esses clarões que por vezes fulguram nos atos dos homens, atos de heroísmo, superação, ou simples eterna resiliência. Que aproxima o homem dos Deuses.

O amor é aristocrático, grassa nos corações jovens, sua forma mais pura, o amor além da decadência de nossos corpos mortais, além da imortalidade, além da eternidade, para muito mais além da existência banal da maioria da humanidade vil... da fornicação vulgar dos torpes.

E como explicar essa magnificência espiritual que se denomina amor? Magia, divindade, providência, capricho da natureza, alguma combinação química efetuada em nossos cérebros pelo mero acaso? Que me importa já? Sua existência é indelével, inexpugnável da alma humana. Se é nobre, ama.

Dante Alighieri sentia em si o arrebatamento febril tão intenso, que isso lhe causava tristes pesadelos, mas belíssimos sonhos outrossim, tão virulento foi o assalto amoroso, que em extâse catártico, imortalizou o objeto de suas doces tenções, em duas obras magnas da literatura mundial.

A honra e o amor, entrelaçados, sempre juntos, inerentes perante a natureza, epítome erigida pelos Deuses, um culto a vida... Se tu soubesses o que inspiras em meu peito...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ausência de nobres maneiras



Os soldados e comandantes mantém ainda entre eles relações de natureza superior às que existem entre operários e patrões. Por enquanto, pelo menos, qualquer civilização de tipo militar encontra-se bem acima daquelas a que se dá o nome de industriais: estas, sob o seu aspecto atual, são a mais vulgar forma de existência que foi possível ver até hoje. Elas são regidas somente pela necessidade: quer-se viver e se vê obrigado a vender-se, mas despreza-se aquele que explora esta necessidade e que compra o operário. Singularmente, existe menos dificuldade em se submeter a pessoas poderosas que inspiram o receio, mesmo o terror, aos tiranos e aos comandantes de exército, do que a desconhecidos sem interesse, como o são todos os magnatas da indústria. Normalmente, o operário só vê no patrão um cão astuto, um vampiro que especula com todas as misérias e cujo nome, pessoa, costumes e reputação lhe são perfeitamente indiferentes. Os fabricantes e os grandes negociantes mostraram provavelmente até aos nossos dias a falta desses sinais que distinguem a raça superior, que tornam interessante uma personalidade; se tivessem tido, no olhar e no gesto, a distinção da nobreza hereditária, não haveria talvez socialismo das massas. Uma vez que as massas, no fundo, estão prontas a qualquer espécie de escravidão, desde que o chefe prove incessantemente sua legitimidade, o seu direito a comandar de nascença pela nobreza da forma. O homem mais vulgar sente que a distinção não se improvisa e que deve reverenciar nela o fruto de longos períodos do tempo; a ausência de forma e a clássica vulgaridade dos fabricantes de grandes mãos vermelhas e gordas, levam, pelo contrário, a pensar que foram unicamente o acaso e a sorte que colocaram o patrão acima do outro: muito bem! Pensa ele consigo, experimentemos também o acaso e a sorte! Lancemos os dados!... E inicia-se o socialismo.

F. W. Nietzsche, Gaia Ciência, Livro Primeiro, Aforismo 40, Tradução: Jean Melville