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sábado, 26 de setembro de 2015

O poder da personalidade na guerra III

Um fardo muito mais pesado do que aquele da mais violenta batalha ofensiva, porém, tem de ser carregado pelo chefe quando a batalha toma uma forma desfavorável. Simplesmente trágico é seu destino quando não mais consegue despertar o entusiasmo e a esperança em todos os outros através do fogo que arde em seu coração e da força e da força da sua determinação; quando não mais consegue manter sua ascendência sobre as massas e permanecer seu senhor.

O primeiro ataque prussiano contra o flanco direito do exército francês em Waterloo foi temporariamente refreado às 19 horas e Napoleão enviou sua última reserva, dez batalhões de guarda, para um ataque decisivo ao flanco esquerdo de Wellington. Quando sua última tentativa de mudar a sorte do dia fracassou, quando estas seletas tropas que ostentavam a tradição de invencibilidade recuaram, o imperador finalmente bradou: "C'est fini." Esta expressão mostrava que havia chegado o momento em que "o peso da massa o arrastara para o mesmo nível em que esta se encontrava, para as profundezas de uma mera natureza animal, que recua ao medo e não sabe o que é vergonha". ~ Hugo von Freytag-Loringhoven, O poder da personalidade na guerra, capítulo 7.


"Por mais selvagem que seja a natureza da guerra, ela encontra-se dentro da esfera da fraqueza humana" ~ Carl Von Clausewitz, Da guerra, Volume III, Capítulo 16

"Riquezas, bens materiais e números não são as únicas coisas que contam; existem outros elementos não físicos que podem trazer a vitória, a educação do povo; ordem e subordinação, que dão forma à massa; disciplina, que a torna utilizável e que, mesmo no infortúnio, faz com que tenha confiança em si mesma; o incentivo de vidas ilustres, que fortalece o espírito; determinação que controla tudo; e poder intelectual, que nos orienta em direção ao objetivo desejado." ~ Droysen, Frederico, O grande

"Quando Gneisenau estudou os homens para ver se o seu espírito poderia ser 'elevado', pareceu-lhe que o espírito de Frederico havia atingido o zênite de sua influência. Frederico era possuidor de uma determinação inesgotável segundo a qual agia, e, conforme foi dito por Fichte, é esta determinação e não a força das armas que alcança a vitórias. Era esta força mental que apoiava Frederico em suas mais profundas desventuras, que o fazia elevar-se mais alto do que nunca ante a adversidade e que o tornava merecedor do título de "O Grande". A história das desventuras de Frederico ilustram uma descrição poética do destino como aquela que enaltece um homem que embora o subjugue." ~ Koser, Frederico, O grande

"É preciso acreditar firmemente no valor de princípios bem testados e lembrar-se de que  impressões momentâneas, embora fortes, são duvidosas. Nossa crença nestes princípios e nossa desconfiança entranhada nas sensações transitórias nos ajudarão a nos manter firmes nas decisões basicamente corretas quando nos sentirmos tentados a duvidar delas, e nossas ações assumirão aquela firmeza e consistência a que chamamos de caráter" ~ Carl Von Clausewitz, Da guerra, Volume I, Capítulo 3

"A expressão 'força de caráter', ou simplesmente 'caráter', significa uma adesão firme às nossas convicções, quer estas convicções sejam o resultado do nosso próprio pensamento ou de outrem, quer sejam classificadas como princípios, opiniões ou aspirações do momento. A expressão aplica-se, apenas, àqueles que mantêm-se firmes às suas convicções. Aquele que continuamente muda de opinião não possui caráter." ~ Carl Von Clausewitz, Da guerra, Volume I, Capítulo 3

"Aquele que compreende a natureza de uma decisão em questões práticas, especialmente na guerra, onde esta deve tomada sob o peso de uma grande responsabilidade e em meio a milhares de incertezas e contradições, chegará à conclusão de que as decisões não podem ser tomadas sem que haja muitas dúvidas, e aquilo que pode parecer um problema muito simples, muitas vezes não pode ser resolvido sem que haja uma grande determinação. A elaboração de planos para operações militares é, portanto, a parte mais fácil de um planejamento, embora para que este tenha êxito, ele necessita, obviamente, de ser sólido." ~ Carl Von Clausewitz, A Campanha de 1799 na Itália e Suíça.

O significado da honra para um soldado

A significação moral da guerra manifesta-se em tudo que aparece em conexão com ela, e não nela. Onde quer que surja um conflito na vida humana, relacionado a qualquer coisa melhor do que ganância ou crueldade cegas, de ambos os lados, onde quer que haja até mesmo o mais tênue brilho daquilo que os homens chamam de dever, encontraremos sempre aquele sentimento misterioso e exaltado chamado honra, cuja penetrante suavidade não é suscetível de comparação, uma vez que, confrontado com ela, o valor da própria vida tem o peso de uma pena. O sentimento de honra pessoal, de auto-respeito, que eleva o homem acima da condição da vida comum, não é nada mais do que uma concentração de nobreza no indivíduo. Para o soldado, ele surge como uma crença sagrada e uma prerrogativa especial. O soldado zela cuidadosamente por sua honra, pois, para ele, esta é a única coisa que o coloca acima da sua caricatura, o gladiador.

Os pacifistas procuram rebaixar o soldado ao plano de sua caricatura, pois não possuem nenhuma idéia da verdadeira natureza humana. Não possuem nenhum discernimento acerca da grandeza do sacrifício e do sofrimento exigidos pela guerra. Eles também não compreendem que existem homens que conseguem ver a morte gloriosa como a grande realização de suas vidas.

O significado moral da guerra

Consciente ou inconscientemente, esta má compreensão do significado moral da guerra revela uma incapacidade de compreender o caráter humano; ela advém de uma filosofia de vida puramente materialista. A base real da doutrina da paz eterna não é nada mais do que egoísmo e amor ao conforto disfarçados sob um vago idealismo. Essa tendência ignora totalmente o fato de que pode-se encontrar um idealismo muito mais sadio aceitando-se a vida como ela é.

A história nos ensina que as nações que não se encontram prontas a defender sua honra, com armas, invariavelmente entram em declínio. É oportuno, portanto, sempre que a sociedade volta-se para uma luxúria descuidada, não refreada por quaisquer considerações morais, que surja no horizonte aquele tipo de ansiedade política, aquele restaurador do dever cívico, a guerra. A paz eterna seria um destino perverso, porquanto seria adquirida, unicamente, ao custo das mais nobres qualidades e dos mais altos fados do homem. 

A necessidade de se desenvolver e manter um espírito guerreiro

Devemos, portanto, estar cônscios do nosso dever no sentido de despertar e desenvolver estas qualidades nobres e de nos proteger contra a sentimentalidade doentia. "Se a guerra sangrenta é um espetáculo horrível, isto deve nos advertir para a colocarmos em um plano superior e não para, por um falso sentimentalismo, embotarmos nossas próprias espadas, pois pode surgir um inimigo cuja a espada ainda esteja afiada." As condições mundiais certamente não são como as atuais (1911) para encorajar-nos a pensar que conflitos armados entre nações são uma coisa do passado. Já pudemos ver em nosso próprio país (Alemanha) os efeitos das doutrinas enganosas do pacifismo, agora tão amplamente difundidas, e fomos cruelmente punidos por isto. As fracas teorias filantrópicas que controlavam as classes mais altas de nosso povo em 1806 foram em muito responsáveis pelos desastres ocorridos naquele ano. Muitos dessa geração haviam perdido totalmente a compreesão da realidade da guerra e do verdadeiro sentido da atividade militar, porém recordaram-se dos mesmos nos anos de dominação estrangeira.

Heinrich von Treitschke caracteriza extraordinariamente o desastre de 1806 quando diz que ainda hoje o sentimos, em meio à nossa gloriosa história militar (1911), "como um sofrimento pessoal". A partir disto, devemos nos prevenir contra as tendências que nos desviam dos verdadeiros objetivos de nossa profissão. Tais tendências manifestam-se de diversas formas. Algumas vezes, encontram-se ocultas em meio a nuvens de uma pseudofilosofia, enfraquecendo nossa noção do dever militar, destruindo nosso prazer pelo trabalho e até mesmo nos sugerindo que aquilo pelo que trabalhamos já está obsoleto.

Não há melhor proteção contra essas influências do que a vigorosa ética de Clausewitz. O seu trabalho é baseado na experiência de uma época que assistiu à súbita queda e à rápida e estarrecedora ascensão de nosso país. Em 1813, Clausewitz viu o serviço universal desenvolver-se a partir das necessidades da guerra. O nosso dever, hoje, é manter as valiosas qualidade militares que surgiram no nosso exército nacional naquela época e que,  três gerações depois, nos inspiraram em três guerras vitoriosas. É nosso dever treinar essa "nação em armas" para a guerra moderna. Portanto, devemos nos empenhar em desenvolver uma sinceridade de propósitos quanto a isso, apesar das tendências desagregadoras dos tempos. O estabelecimento de uma crença nacional na necessidade suprema de se obter a vitória na guerra deve ser o verdadeiro objetivo na nossa vida, pois esta convicção é a essência de um caráter militar.

Os métodos que adotamos para realizar o nosso grande objetivo irão diferir tal como os métodos pelos quais esta convicção é formada em diferentes pessoas. Homens como Scharnhorst, Gneisenau, Lee, Moltke, adquiriram a capacidade de inspirar um grande empenho e auto-sacrifício nos outros através de uma autodisciplina rigorosa e de uma forte fé religiosa. A pureza de caráter destes homens era tão evidente que eles pareciam ser a encarnação do líder ideal formulado por Clausewitz. A religião destes homens era o mais autêntico cristianismo, e a partir dele adquiriam aquela humildade que os tornava fortes contra todas as dificuldades.

Os chefes militares devem ser julgados pelos resultados

A familiaridade com o combate, muitas vezes, é causada por um certo fatalismo, o qual, para muitos soldados, torna-se um substituto para religião. A vida na guerra tende a fortalecer os homens, e mesmo durante o período de paz, o contexto no qual um soldado passa os seus primeiros anos de serviço determina em muito seu caráter. Portanto, dever-se-ia dar maiores concessões a esta circunstância do que normalmente se dá ao se julgar os militares. Julgar Blucher, que uma vez incorporou todo espírito militar do nosso povo, somente sob um ponto de vista filisteu e moralista seria um erro crasso. A vida rude do campo, que Blucher adorava, era repugnante para o seu chefe de estado-maior, Gneisenau. Ele, porém, compreendia o seu chefe, tolerava suas fraquezas secundárias e via, apenas, as suas grandes e heróicas qualidades. Assim como Gneisenau, devemos prestar honras às grandes virtudes militares, mesmo que, no homem, a grandeza não seja alcançada em todos os seus aspectos.

O ponto essencial é, e sempre será, que um homem deve entregar-se totalmente a uma grande causa, não deve procurar satisfazer sua vaidade, e nem tampouco tirar vantagens pessoais. Visto sob este prisma, o empenho em expressarmos a nossa própria personalidade não é um fim em si mesmo; é simplesmente um meio para nos preparar para aquilo que mede o valor de um homem na guerra, isto é, o que ele faz em ação. ~ Hugo von Freytag-Loringhoven, O poder da personalidade na guerra, capítulo 9

sexta-feira, 1 de maio de 2015

O poder da personalidade na guerra II

"...A atitude de Frederico com relação ao Estado explica a base moral de sua ambição. No caso de Napoleão, a França era um mero brinquedo para a realização dos seus planos de engrandecimento pessoal, os quais eram ilimitados. Com relação a Frederico, entretanto, na época da Segunda Guerra Silesiana, ele pensava apenas em manter o que havia conquistado, e na Guerra dos Sete Anos, sacou a espada com relutância e somente com o intuito de prevenir um ataque inimigo. Sua louvável ambição, onde o Estado vinha sempre em primeiro lugar, foi a base daquela ação incomparavelmente arrojada, a qual já observamos. Suas próprias palavras, "Viver, pensar e morrer como um rei", nos fornecem a chave para toda sua vida; e foi somente essa determinação que tornou-lhe possível progredir frente a toda Europa, com a total determinação de não sobreviver a um desastre. Com relação a isto, ele contrasta acentuadamente com Napoleão, que não apenas sobreviveu ao colapso de seu poder, mas que, após ver a morte de perto em tantas batalhas, revelou-se um mero aventureiro procurando desprezivelmente salvar a própria vida após sua primeira queda." ~ Hugo von Freytag-Loringhoven, O poder da personalidade na guerra, capítulo 6.

"Uma mente forte não é apenas aquela capaz de ser exercida com vigor. É aquela que em meio ao mais vigoroso dos exercícios consegue manter um equilíbrio de modo que, a despeito do tumulto interno, o poder de decisão e de discernimento mantém-se tão firme quanto a agulha de uma bússola, que, apesar da agitação do navio, mantém a sua precisão." ~ Carl von Clausewitz, Da guerra, volume I, capítulo 3.

"Não é necessária nenhuma grande exibição de força de vontade desde que as tropas lutem com entusiasmo. Quando, porém, as coisas começam a ficar difíceis, onde resultados excepcionais tem de ser obtidos, a força de combate perde as características de uma máquina bem lubrificada. Começa a surgir o desgaste, e é necessária uma grande determinação por parte do chefe para superá-lo. Este desgaste não é caracterizado por uma desobediência e resistência verdadeiras, embora estas possam aparecer em certos indivíduos. Ele é, antes de tudo, o efeito coletivo do enfraquecimento da força física e moral, da dolorosa visão do sacrifício de vidas que o chefe deve combater em si mesmo, e, depois, em todos os outros que, de forma mediata ou imediata, passam-lhe todos os seus sentimentos, cuidados e esforços. Quando a força dos indivíduos começa a fraquejar e não mais pode ser estimulada segundo a vontade dos mesmos, a inércia conjunta resultante cai de forma mais e mais pesada sobre os ombros do chefe. Com o fogo que arde em seu coração e a força da sua própria determinação, ele deve despertar novamente o entusiasmo e a esperança em todos os outros. Fazendo isso, ele mantém suas ascendências sobre as massas e permanece seu senhor.

Porém, quando sua coragem deixa de ser forte o bastante para afirmar a coragem dos outros, aí então o peso da massa o arrasta para o mesmo nível em que esta se encontra, para as profundezas de uma mera natureza animal, que recua ao medo e não sabe o que é vergonha. Estes são os fardos que a coragem e a força de vontade do chefe tem de carregar durante a ação, caso ele deseje realizar algo de valor. Uma vez que estes fardos aumentam segundo o escalão de comando, uma elevação correspondente de resistência deve acompanhar cada aumento de posto do chefe." ~ Carl von Clausewitz, Da guerra, volume I, capítulo 3.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

O poder da personalidade na guerra I

"Um exército fortalecido pelo hábito da moderação e do esforço físico, como são os músculos de um atleta; um exército que considera os sofrimentos como um meio de alcançar a vitória, e não como um castigo colocado sobre sua bandeira; um exército no qual todas as virtudes e deveres estão encarnadas em um único objetivo, a honra de suas armas; este é o exército que realmente possui um verdadeiro espírito militar." ~ Carl von Clausewitz, Da guerra, volume III, capítulo 5.

"Para soldados treinados, a batalha em Katzbach pode não ter sido uma derrota. Na pior das hipóteses, teria sido um revés, facilmente reparável. Porém com simples rapazes, soldados da noite para o dia, foi o princípio de um desastre. Por outro lado, jamais se encontrará um melhor exemplo do valor da energia física e moral e da necessidade de uma real resistência física para suportar a pressão do tempo, da fome, a sede e de todos os outros sofrimentos da guerra; em uma palavra da necessidade por aquele estoicismo que surge, não de repente, mas gradualmente através do treinamento militar, o qual, no fim de tudo, é simplesmente o espírito entranhado de honra e do dever." ~ Camille Rousset, Batalha do Rio Katzbach, 1813.

"Chuquet afirma corretamente que Leon Gambetta, com seus soldados improvisados, procurou repetir os legendários milagres de 1792-93, mas esqueceu-se que os revolucionários voluntários haviam trazido, através de sua falta de disciplina e coragem, apenas desgraças para seu país. Durante a revolução, a República Francesa foi salva, não pela devoção e habilidade de suas novas tropas, mas pela falta de unidade na Aliança. Em 1793, os alemães estavam fracos e indecisos e estavam relativamente distantes; em 1870, eles encontravam-se fortes e unidos, e estavam atuando não no Sauer e no Scheldt, mas no coração da França, no Sena e no Loire." ~ Hugo von Freytag-Loringhoven, O poder da personalidade na guerra, capítulo 2.

"O esforço físico deve ser empreendido não tanto para treinar o corpo, mas a mente. Na guerra, o recruta, geralmente, considera que qualquer exigência física fora do comum requerida dele é a consequência de algum erro crasso cometido pelo comandante, deixando-se influenciar por este modo de pensar. Isso não acontecerá se ele tiver sido adequadamente preparado para atendê-las durante a instrução em tempos de paz." ~ Carl von Clausewitz, Da Guerra, Volume I, capítulo 8.

"Com estas qualidades e guiado simplesmente por um correto bom senso, o homem se torna um instrumento de guerra eficaz. Estas qualidades são inerentes aos povos selvagens e semicivilizados, mas nas nações civilizadas, elas devem ser desenvolvidas pela instrução militar." ~ Carl von Clausewitz, Da Guerra, Volume I, capítulo 3.

"A guerra é o domínio do esforço físico e do sofrimento. Para um homem não ser dominado por estes aspectos, ele precisa possuir uma certa força física e mental, inata ou adquirida, que o torna indiferente a eles." ~ Carl von Clausewitz, Da Guerra, Volume I, capítulo 3.

"Na nossa época, não parece haver meios de incutir este espírito(coragem) em um povo, a não ser através da guerra e de uma liderança ousada. Somente isto pode contrapor-se àquele comodismo, àquele desejo por conforto e prazer, que pode arruinar um povo." ~ Carl von Clausewitz
"A audácia na guerra tem suas prerrogativas. Quando as estimativas de espaço, tempo e poder de combate estiverem concluídas, um certo acréscimo deve sempre ser feito em razão da vulnerabilidade do inimigo. Isto pode ser rapidamente rapidamente demonstrado de modo filosófico. Sendo os outros fatores iguais, sempre que a audácia encontra o medo, ela deve prevalecer, pois o medo sempre é prejudicado por uma perda de equilíbrio. Somente quando a audácia se depara com a prudência calculada, tão ousada, e, pelo menos, tão forte e poderosa como ela própria, ela tornar-se-á inferior. Tais casos são raros. Entre os prudentes, haverá sempre muitos que o são por pura timidez." ~ Carl von Clausewitz
"Longos anos de guerra criaram em Ney uma infalível serenidade que o tornava capaz de dizer a um soldado ferido que pedia por ajuda durante a retirada da Rússia em 1812, "Como posso ajudá-lo? Você faz parte dos destroços de guerra". Nessas palavras, ditas tão calmamente, não havia crueldade, havia apenas a expressão de uma antiga verdade - o soldado na guerra está destinado a destruição; uma verdade quase esquecida na nossa era de amor à paz." ~ Hugo von Freytag-Loringhoven

"Homens comuns, que se submetem à persuasão externa, de um modo geral permanecem continuamente indecisos. Para eles todas as situações são diferentes do que as que imaginavam. Neste estado mental, rendem-se posteriormente a persuasão externa e tornam-se ainda mais incertos e instáveis, até mesmo uma pessoa forte e decidida que tenha baseado suas decisões em informações de primeira mão irá, frequentemente, tomar decisões erradas. Ela não deve, porém, permitir que estes erros abalem sua autoconfiança inata e a tentem a mudar suas decisões bem tomadas para apagar uma impressão efêmera." ~ Carl von Clausewitz, Da Guerra, Volume I, capítulo 6.

"Sem dúvida alguma, nossas táticas devem mudar com as inovações dos campos de batalha. Disse Napoleão: "As táticas devem mudar a cada dez anos para se manter até mesmo uma imagem de superioridade." Entretanto, por mais que mudem as táticas, elas não reduzirão a necessidade por generais habilidosos que ajam de forma audaz dispondo apenas de informações superficiais. Sempre precisaremos, por exemplo, de homens como Constantine Von Alvensleben; o que teria acontecido em Thionville caso o general Von Alvensleben tivesse esperado até que estivesse absolutamente seguro da situação e tivesse, por assim dizer, contado o inimigo homem por homem? Os problemas na guerra jamais podem ser resolvidos como aqueles de aritmética e devemos sempre estar prontos para agir de forma apropriada apesar das incertezas. Não devemos também procurar reduzir as táticas a meras fórmulas técnicas e matemáticas. Isto elas jamais poderão se tornar, e é justamente por esse motivo que a nossa profissão é tão fascinante. A guerra sempre exigiu, e irá sempre exigir, o melhor raciocínio e o mais completo desenvolvimento da personalidade do qual uma pessoa seja capaz. Isto, obviamente, é diretamente contrário ao espírito sectário nivelador e negativo que contamina atualmente a vida moderna e que abomina, acima de todas as coisas, um espírito militar forte e independente." ~ Hugo von Freytag-Loringhoven, A guerra é o domínio da incerteza, capítulo 4.

sábado, 29 de junho de 2013

Sorte

Como um empresário austríaco de 30 anos, de natureza pacífica e simples torna-se em 3 anos o homem mais perigoso da Europa?

Lendo a biografia de Otto Skorzeny percebemos, que mesmo o melhor guerreiro depende de inumeráveis fatores de sorte para se tornar vencedor.

É melhor vencer o inimigo com a fome do que com o ferro, pois na vitória obtida com este vale muito mais a sorte do que o valor.
Maquiável, Arte da Guerra, Livro Sétimo.

Os homens decerto se impressionam demais com as representações da guerra feitas pelas arte, principalmente os cinemas. Quando na verdade deveriam ler biografias de homens como Skorzeny para deslindar o que realmente é a guerra. Skorzeny dizia que a guerra era uma coisa triste, e realmente é.

Face a própria mortalidade nos campos de batalha que nem sempre tem honra. As tribulações e necessidades da trincheira que as vezes são piores que a batalha em si, a depressão, os traumas, a desfiguração psicológica. 

Não obstante, não se pode objetar isso ao dever de se lutar pela pátria e porventura morrer, não se pode desejar a paz a qualquer custo, a custo da sua própria dignidade, e da dignidade de seu povo, isso seria pacifismo.

No fim, a natureza impinge ao homem deveres diversos e inevitáveis, não se deve pensar nessas circunstâncias que atingem todas as pessoas igualmente, como tristes ou felizes, sequer devemos ter opiniões sobre isso, a natureza é indiferente as opiniões dos homens, se há algum sentimento que pode ajudar o homem porém, é a esperança, que se para o universo é irrelevante, para o homem é uma fonte de força e alento, é um dos fundamentos da vontade em si, contrário dos sentimentos de raiva, tristeza e desespero, que somente enfraquecem e nada trazem de bom.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Da vingança

— Eu, meus senhores, sou cavaleiro andante, cujo exercício é o das armas e cuja profissão é a de favorecer os que de favor precisam, e acudir aos que de socorro hão mister. Há dias que soube da vossa desgraça e da causa que vos move a pegar em armas, para vos vingardes dos vossos inimigos; e, tendo pensado maduramente no vosso negócio, entendo, segundo as leis do duelo, que andais erradamente, supondo-vos afrontados, porque nenhum particular pode afrontar um povo inteiro, senão arrojando a todos juntos o epíteto de traidores, por não saber qual deles foi que cometeu a traição. Temos exemplo disto em D. Diogo Ordoñez de Lara, que desafiou todo o povo de Samora, porque ignorava que só Velido Dolfos fora o traidor que matara o seu rei, e por isso a todos reptou e a todos tocava a vingança e a resposta; e, ainda assim, não pode deixar de se dizer que o senhor D. Diogo andou com certa precipitação, e passou muito adiante dos limites do repto, porque não tinha motivo para reptar os mortos, as águas e os pães e os que ainda não tinham nascido, nem as outras minudências que no desafio se declaram; mas, enfim, passe! porque, quando a cólera se apodera impetuosamente de um homem, não há quem lhe segure a língua, nem há freio que a corrija. Sendo, pois, isto assim, que um homem só não pode afrontar nem reino, nem província, nem cidade, nem república, nem povo algum inteiro, é claro que não há motivo para sairdes a vingar-vos de semelhante afronta, que o não é, porque seria curioso que a cada passo se matassem os habitantes de diferentes povoações, que têm diversas alcunhas, e os que lhas puseram ou que por elas os chamem; seria estranho, decerto, que todos os povos insignes, que têm alcunhas, se chacoteassem e se vingassem e andassem continuamente de espada desembainhada em qualquer pendência, por pequena que fosse. Não, não, nem Deus tal permita, nem queira; os varões prudentes, as repúblicas bem concertadas, por quatro coisas hão-de pegar em armas e arriscar as suas pessoas, vidas e fazendas. Primeira, para defender a fé católica; segunda, para defender a vida, que é de lei natural e divina; terceira, em defesa da sua honra, da sua família e da sua fazenda; quarta, em serviço do seu rei em guerra justa; e, se lhe quisermos ainda acrescentar uma quinta causa, para defender a sua pátria. A estes cinco motivos capitais se podem acrescentar alguns outros justos e razoáveis, que obriguem a tomar as armas; tomá-las, porém, por ninharias e por causas que são antes de riso e passatempo, que de afronta, não parece de gente razoável; tanto mais que o tirar vingança injusta (que justa não a pode haver), vai diretamente contra a santa lei que professamos, em que se nos manda que façamos bem aos nossos inimigos e amemos a quem nos aborrece; mandamento que, ainda que pareça um tanto dificultoso de cumprir, não o é senão para aqueles que têm menos de Deus que do mundo, e mais de carne que de espírito, porque Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, que nunca mentiu, nem pôde nem pode mentir, sendo nosso legislador, disse que o seu jugo era suave, e leve a sua carga; e assim, não nos podia ordenar coisas que fossem impossíveis de executar. Portanto, meus senhores, Vossas Mercês são obrigados, pelas leis divinas e humanas, a desistir da luta.

CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de; O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Tomo II, Capítulo XXVII.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Ócios e ociosidade

Existe uma selvageria própria de pele-vermelha, portanto, particular ao sangue índio, na maneira como os americanos aspiram ao ouro; e o seu frenesi no trabalho – o verdadeiro vício do Novo Mundo- começa já a barbarizar, por contágio a velha Europa, dizimando uma estranha ausência de espírito.
Tem-se agora vergonha do descanso; quase se experimentaria um remorso com a reflexão mais demorada. Pensa-se de relógio na mão, mesmo quando se está a almoçar, com um olho no correio da bolsa; vive-se permanentemente como alguém que tem medo de “perder” alguma coisa. “Mais vale agir do que não fazer nada”, eis ainda um desses princípios de carregar pela boca que correm o risco de vibrar o golpe de misericórdia a qualquer cultura, e qualquer gosto superior.
Este frenesi no trabalho dobra os afiados de todos os modos; pior, enterra o próprio sentimento desta forma, o senso melódico do movimento; as pessoas tornam-se cegas e surdas a todas as suas harmonias. A prova está na pesada precisão que se exige agora em todas as situações em que o homem quer estar honestamente diante do seu semelhante, nas suas relações com amigos, mulheres, pais, filhos, patrões, alunos, guias e príncipes; tem-se falta de tempo, tem-se falta de força para consagrar à cerimônia, os meneios da cortesia, o espírito da conversa, e o ócio de uma maneira geral.
Uma vez que a vida, tornada caça ao lucro, obriga o espírito a esgotar-se sem repouso no jogo de dissimular, de iludir, ou de prevenir o adversário; a verdadeira virtude consiste agora em fazer uma coisa mais depressa do que um outro. Dessa forma, só em raras horas é que as pessoas se podem permitir ser sinceras: e nessas horas, está-se tão cansado que se aspira não somente a “deixar correr” mas a estender-se pesadamente a deitar-se.
É esta inclinação que dá o tom da correspondência agora; e o estilo e o espírito das castas, serão sempre o verdadeiro “sinal do tempo”. Se ainda se encontra prazer na sociedade e nas artes, é um prazer do gênero daqueles que podem encontrar os escravos mortos de trabalho. Oh! Como alegram-se por pouca coisa essa gente do momento, com ou sem cultura, como é modesta nas suas “alegrias”! Que vergonha a suspeita que atraem, cada vez mais severamente, sobre si! Todos os dias o trabalho domina mais e mais a consciência em seu proveito: o gosto da alegria chama-se já “necessidade de descanso”; começa a corar de si próprio. “temos de fazer isto em função da saúde”, diz-se às pessoas que vos surpreendem em uma volta pelo campo.
Neste ritmo as coisas poderão ir, rapidamente, tão longe que não se ousará mais ceder, sem desprezo por si próprio e sem experimentar remorso ao gosto pela vida contemplativa, ao desejo de passear em companhia de pensamentos e de amigos. Pois, antigamente, a maneira era inversa: era o trabalho que sofria de má consciência.
Um homem bem nascido escondia o seu trabalho, se necessidade o constrangia a fazer um. O escravo trabalhava esmagado pelo sentimento de fazer alguma coisa desprezível: “fazer” já o era por si só desprezível. “Somente há nobreza e honra no otium (ócio) e no bellum (guerra)”, assim falava o preconceito antigo!

NIETZSCHE, F. Gaia Ciência. São Paulo: Martin Claret, 2004, p. 168-169.