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sábado, 30 de janeiro de 2016

Perdoem-me

Perdoem-me, oh confrades, essa demorada ausência, nada mudou realmente, as cousas vogam como quer o fluxo do destino, e eu vou, às vezes de bom grado, às vezes arrastado pelos grilhões do fado, assim como qualquer mortal. Sempre atentando em não perder minha honra, pois quão fácil é nessa época de prazeres, nós deixarmos a virtude escapar e nos tornarmos menos que seres humanos. Até agora consegui, não sem esforços hercúleos, sem nenhum par para me vigiar, afinal vivo no monturo da sociedade moderna, mas antes, tenho em mim meu supremo fiscalizador, minha consciência, ubíqua em seu olhar onisciente perscrutando os arrabaldes mais negros de minha alma, e me condenando com veemência fanática e cruel, por meus defeitos humanos porém evitáveis, porque eu sei melhor do que agir como um animal.

Os Deuses derramam suas graças sobre mim, e honestamente, sobre qualquer homem que esteja disposto a percebê-las, pois, eu ainda não encontrei razão teológica que ressoe, no entanto, parece claro que os Deuses favorecem o caminho da virtude, qualquer mente não corrompida pelo niilismo doentio moderno o vê. Seguir a vontade dos Deuses é gratificante, por mais que esteja consciente da infinitesimal pequenez do meu ser e da humanidade perante o universo, as dimensões cósmicas, os outros seres inteligentes e superiores que habitam o tempo e espaço, e por fim os próprios Deuses, todos os indícios parecem apontar que sim, os Deuses se importam conosco, com o nosso modo de viver, com o nosso espírito. Levando isso ao peito, eu consigo arrostar esses turbilhões malignos de degeneração que assolam o mundo moderno, mas não hão de mover-me, pois minhas raízes são profundas, e elas não gelam, jamais.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O retorno do cavaleiro



Mi piace pensarti così
Me agrada pensar-te assim
mentre sorridi sicura di te
enquanto sorri segura de si,
Confondi quel tenero sguardo
Confunde o doce olhar,
con l'uomo che torna da terre lontane
com o homem que volta de terras longínquas
Sai come curare le brutte ferite
Sabe como curar as hediondas feridas
forgiate di lunghe battaglie già vinte o perdute.
forjadas em longas batalhas já ganhas ou perdidas.

Mi piace chiamarti per nome
Me agrada chamar-te pelo nome
o dire mia moglie alla gente che viene
ou dizer "minha mulher" em frente as pessoas
Ti senti una parte del mondo
Te sente uma parte do mundo
accanto a quell'uomo che porti nel sogno
Ao lado daquele homem que possui no sonho
Non chiedi più niente, sei calma e pacata
Não exige nada demais, é calma e pacata
Sei proprio la donna che ho sempre desiderato.
É a mulher que eu sempre desejei.

Ma ora devo partire,
Mas devo partir,
questa è la terra dei padri che adesso io devo salvare
esta é a terra dos ancestrais que agora eu devo salvar,
Il nemico mi spetta sopra il ponte,
O inimigo me aguarda sobre a ponte,
la spada temprata, lo scudo e il cavallo Un vero purosangue,
A espada brandida, o escudo e o cavalo, um verdadeiro puro sangue,
di questa battaglia faranno bandiera
Desta batalha erigirão insígnias
Sarà il cavaliere, tuo uomo, a tornare stasera.
Será o cavaleiro, teu homem, a tornar esta noite.

Le case diventano nebbia,
As casas cobrem-se de névoa,
la strada un sentiero di corpi e di sangue
a estrada, um caminho de corpos e sangue
Trascini le ossa ferite,
Arrastando ossos feridos,
la terra dei padri ancora non piange
A terra dos ancestrais agora não chora
Il gelo nell'aria sconfigge il dolore,
O ar gélido esvanece a dor,
Ma il forte guerriero che torna è un uomo d'onore!
Mas o forte guerreiro que retorna é um homem de honra.

È notte da un pezzo, ma lei non ci pensa,
A noite avança, mas a ela não importa,
lo aspetta vicino a quel fuoco,
Espera-o próximo aquele fogo,
Le vecchie leggende ti parlano al cuore,
As velhas lendas falam ao teu coração, 
anche questo fa parte del gioco
Também isso faz parte do jogo

Per tutta la vita fedele potrai
Por toda a vida, fiel poderá,
restare accanto a quell'uomo 
Ficar ao lado daquele homem
che un giorno vedrai
que um dia verá.

C'è ancora la neve ai bordi del prato,
Cai agora neve na orla da campina,
sui rami ai confini del bosco
suas ramificações aos confins do bosque
Anche il falco è tornato
Também o falcão retornou,
e con lui la fine del suo viaggio,
e com ele a fim de sua viagem,

Quell'uomo fedele di spada e d'amore 
Aquele homem fiel da espada e do amor
più forte del coraggio
Mais forte da coragem
Lo accogli con fare da vera regina
Acolhe-o com maneiras de uma verdadeira rainha
sui biondi capelli d'incanto si scioglie la brina.
Seus louros cabelos de encanto derretem a neve.

domingo, 1 de abril de 2012

Resignação

Sozinho no descampado,
Sozinho sem companheiro,
Sou como o cedro altaneiro
Pela tormenta açoitado.
 

Rugi, tufão desabrido!
Passai, temporais de pó!
Deixai o cedro esquecido,
Deixai o cedro estar só!
 

Em meu orgulho embuçado,
Do tempo zombo da lei...
Oh! venha o raio abrasado,
- Sem me vergar... tombarei!
 

Gigante da soledade,
Tenho na vida um consolo:
Se enterro as plantas no solo,
Chego a fronte à imensidade!
 

Nada a meu fado se prende,
Nada enxergo junto a mim;
Só o deserto se estende
A meus pés, fiel mastim.
 

À dor o orgulho sagrado
Deus ligou num grande nó...
Quero viver isolado,
Quero viver sempre só!
 

E quando o raio incendido
Roçar-me, então cairei
Em meu orgulho envolvido,
Como em um manto de rei.


Fagundes Varella

sábado, 31 de março de 2012

Da resposta que deu D. Quixote ao seu repreensor

 
Erguido, pois, D. Quixote, tremendo desde os pés até à cabeça, com azougada, pressurosa e turva língua, disse:

— O lugar onde estou, a presença de tão excelsas pessoas e o respeito que sempre tive e tenho ao estado que Vossa Mercê professa, atam-me as mãos ao justíssimo enfado; e assim, tanto pelo que disse, como por saberem todos que as armas dos que vestem sotainas são, como as das mulheres, a língua, entrarei, servindo-me da minha, em igual batalha com Vossa Mercê, de quem se deviam esperar antes bons conselhos do que infames vitupérios. As repreensões santas e bem intencionadas requerem outras circunstâncias e pedem outros assuntos; pelo menos, o repreender-me em público e tão asperamente, excedeu todos os limites da censura cordata; porque às primeiras cabe melhor a brandura do que a aspereza; não me parece bem que, sem ter conhecimento do pecado que se repreende, se chame ao pecador, sem mais nem mais, mentecapto e tonto. Senão, diga-me Vossa Mercê: que tonteria viu em mim, para me condenar e vituperar, e mandar-me que vá para minha casa tomar conta do seu governo, e de minha mulher e de meus filhos, sem saber se tenho filhos e mulher? Então não é mais senão entrar a trouxe-mouxe pelas casas alheias a governar os donos delas, e, tendo-se criado alguns dos que isso fazem na estreiteza dum seminário, sem terem visto mais mundo do que o que pode encerrar-se em vinte ou trinta léguas de comarca, meterem-se de rondão a dar leis à cavalaria e a julgar os cavaleiros andantes? Porventura é assunto vão, ou é tempo desperdiçado o que se gasta em vaguear pelo mundo, não procurando os seus regalos, mas sim as asperezas por onde ascendem os bons à sede da imortalidade? Se me tivessem por tonto os cavaleiros, os magníficos, os generosos, os de alto nascimento, considerá-lo-ia eu afronta irreparável; mas que me tenham por sandeu os estudantes, que nunca pisaram a senda da cavalaria, pouco me importa; cavaleiro sou e cavaleiro hei-de morrer, se aprouver ao Altíssimo: uns seguem o largo campo da ambição soberba, outros o da adulação servil e baixa, outros o da hipocrisia enganosa, e alguns o da verdadeira religião; mas eu, guiado pela minha estrela, sigo a apertada vereda da cavalaria andante, por cujo exercício desprezo a fazenda, mas não a honra. Tenho satisfeito agravos, castigado insolências, vencido gigantes e atropelado vampiros: sou enamorado, só porque é forçoso que o sejam os cavaleiros andantes, e, sendo-o, não pertenço ao número dos viciosos, mas sim ao dos platônicos e continentes. As minhas intenções sempre as dirijo para bons fins, que são fazer bem a todos e mal a ninguém. Se quem isto entende, se quem isto pratica, se quem disto trata, merece ser chamado bobo, digam-no vossas grandezas, duque e duquesa excelentes.
 
CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de; O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Tomo II, Capítulo XXXII.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Da vingança

— Eu, meus senhores, sou cavaleiro andante, cujo exercício é o das armas e cuja profissão é a de favorecer os que de favor precisam, e acudir aos que de socorro hão mister. Há dias que soube da vossa desgraça e da causa que vos move a pegar em armas, para vos vingardes dos vossos inimigos; e, tendo pensado maduramente no vosso negócio, entendo, segundo as leis do duelo, que andais erradamente, supondo-vos afrontados, porque nenhum particular pode afrontar um povo inteiro, senão arrojando a todos juntos o epíteto de traidores, por não saber qual deles foi que cometeu a traição. Temos exemplo disto em D. Diogo Ordoñez de Lara, que desafiou todo o povo de Samora, porque ignorava que só Velido Dolfos fora o traidor que matara o seu rei, e por isso a todos reptou e a todos tocava a vingança e a resposta; e, ainda assim, não pode deixar de se dizer que o senhor D. Diogo andou com certa precipitação, e passou muito adiante dos limites do repto, porque não tinha motivo para reptar os mortos, as águas e os pães e os que ainda não tinham nascido, nem as outras minudências que no desafio se declaram; mas, enfim, passe! porque, quando a cólera se apodera impetuosamente de um homem, não há quem lhe segure a língua, nem há freio que a corrija. Sendo, pois, isto assim, que um homem só não pode afrontar nem reino, nem província, nem cidade, nem república, nem povo algum inteiro, é claro que não há motivo para sairdes a vingar-vos de semelhante afronta, que o não é, porque seria curioso que a cada passo se matassem os habitantes de diferentes povoações, que têm diversas alcunhas, e os que lhas puseram ou que por elas os chamem; seria estranho, decerto, que todos os povos insignes, que têm alcunhas, se chacoteassem e se vingassem e andassem continuamente de espada desembainhada em qualquer pendência, por pequena que fosse. Não, não, nem Deus tal permita, nem queira; os varões prudentes, as repúblicas bem concertadas, por quatro coisas hão-de pegar em armas e arriscar as suas pessoas, vidas e fazendas. Primeira, para defender a fé católica; segunda, para defender a vida, que é de lei natural e divina; terceira, em defesa da sua honra, da sua família e da sua fazenda; quarta, em serviço do seu rei em guerra justa; e, se lhe quisermos ainda acrescentar uma quinta causa, para defender a sua pátria. A estes cinco motivos capitais se podem acrescentar alguns outros justos e razoáveis, que obriguem a tomar as armas; tomá-las, porém, por ninharias e por causas que são antes de riso e passatempo, que de afronta, não parece de gente razoável; tanto mais que o tirar vingança injusta (que justa não a pode haver), vai diretamente contra a santa lei que professamos, em que se nos manda que façamos bem aos nossos inimigos e amemos a quem nos aborrece; mandamento que, ainda que pareça um tanto dificultoso de cumprir, não o é senão para aqueles que têm menos de Deus que do mundo, e mais de carne que de espírito, porque Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, que nunca mentiu, nem pôde nem pode mentir, sendo nosso legislador, disse que o seu jugo era suave, e leve a sua carga; e assim, não nos podia ordenar coisas que fossem impossíveis de executar. Portanto, meus senhores, Vossas Mercês são obrigados, pelas leis divinas e humanas, a desistir da luta.

CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de; O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Tomo II, Capítulo XXVII.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Da jurisdição dos pais sobre as filhas.

— Se casassem todos os que se querem — acudiu D. Quixote — tirava-se aos pais a escolha e a jurisdição de casarem os seus filhos com quem devem e quando querem, e se ficasse à vontade das filhas escolher os maridos, haveria tal que escolheria o criado do pai, e outra o que viu passar na rua, no seu entender bizarro e jeitoso mancebo, ainda que fosse um espadachim valdevinos: que o amor e a afeição facilmente cegam os olhos do entendimento, tão necessários para escolher estado; e no do matrimônio é muito perigoso o erro, e é mister grande tento e particular favor do céu para acertar. Quer uma pessoa empreender uma larga viagem e, se é prudente, antes de se pôr a caminho busca alguma companhia segura e aprazível. Pois por que não fará o mesmo o que há-de caminhar toda a vida até ao paradeiro da morte, quando de mais a mais a pessoa escolhida tem de ser sua companheira de cama e mesa, como acontece à mulher com seu marido? Uma esposa não é mercadoria que, depois de comprada, ainda se pode trocar ou rejeitar; é um acidente inseparável, que dura a vida toda; é um laço que, uma vez atado ao pescoço, se transforma em nó górdio, que, se não for cortado pela garra da morte, não há meio de desatar. Muitas mais coisas poderia dizer neste assunto, se o não estorvara o desejo que tenho de saber se o senhor licenciado tem mais alguma coisa que narrar da história de Basílio.

CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de; O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Tomo II, Capítulo XVIII.

domingo, 3 de julho de 2011

Dos Filhos e Poesias




Contexto: No caminho para Saragoça, no capítulo XVI, Dom Quixote encontrara o fidalgo Dom Diogo de Miranda que passava de largo a estrada, e que resolveu fazer companhia ao Cavaleiro da Triste figura, pelo que restava de caminho, ao que entreteram-se em colóquios, e nessas práticas Dom Diogo fizera Dom Quixote saber de sua angústia ao observar que seu filho encaminhara-se para as ciências não muito úteis, segundo ele, da poesia e filologia, ao que Dom Quixote redargüiu-lhe nestes termos.



— Os filhos, senhor — respondeu D. Quixote — são pedaços das entranhas de seus pais, e sejam bons ou maus, sempre se lhes há de querer como às almas que nos dão vida; aos pais cumpre encaminhá-los desde pequenos pela senda da virtude, da boa criação e dos bons e cristãos costumes, para que sejam bordão da velhice de seus pais e glória da sua posteridade, quando forem crescidos; e enquanto a forçá-los que estudem esta ou aquela ciência não o tenho por acertado, ainda que o persuadir-lho não será danoso; e, quando não se tem de estudar para
pane lucrando, sendo o estudante tão venturoso, que recebesse do céu pais que lhe deixem haveres, seria eu de parecer que o não impedissem de seguir a ciência para que se inclina, e ainda que a da poesia é menos útil do que deleitosa, não é das que desonram os que a possuem.

A poesia, no meu entender, senhor fidalgo, é como uma donzela meiga, juvenil e formosíssima, que se desvelam em enriquecer, polir e adornar outras muitas donzelas, que são todas as outras ciências, e todas com ela se hão de autorizar; mas esta donzela não quer ser manuseada, nem arrastada pelas ruas, nem publicada nas esquinas das praças, nem pelos desvãos dos palácios. É feita por uma alquimia de tamanha virtude, que quem souber tratá-la pode mudá-la em ouro puríssimo; não a há de deixar correr quem a tiver por torpes sátiras e desalmados sonetos; não se há de vender de nenhum modo, a não ser em poemas heróicos, em lamentáveis tragédias ou em comédias alegres e artificiosas; não se há de deixar tratar pelos truões, nem pelo vulgo ignorante, incapaz de conhecer nem de estimar os tesouros que nela se encerram. E não penseis, senhor, que chamo aqui vulgo somente à gente plebéia e humilde, que todo aquele que não sabe, ainda que seja senhor e príncipe, pode e deve ser contado entre o vulgo; e assim, quem cuidar a poesia com estes requisitos, terá fama e nome estimado em todas as nações civilizadas do mundo.

E enquanto ao que dizeis, senhor, de vosso filho não ter em grande estima a poesia castelhana, entendo que não anda nisso com muito acerto, e a razão é esta: o grande Homero não escreveu em latim, porque era grego; nem Virgílio escreveu em grego, porque era latino. Enfim, todos os poetas antigos escreveram na língua que beberam com o leite e não foram procurar os idiomas estrangeiros para manifestar a alteza dos seus conceitos; e, sendo isto assim, era razoável que este costume se estendesse por todas as nações, e que se não menosprezasse o poeta alemão que escreve na sua língua, nem o castelhano, nem o próprio biscainho que escreve na sua; mas vosso filho, senhor, ao que imagino, não estará de mal com a poesia moderna, mas sim com os poetas que são meros versejadores castelhanos, sem saberem outras línguas, nem outras ciências que adornem, despertem e auxiliem o seu natural impulso; e ainda nisto pode haver erro, porque, segundo opiniões sensatas, o poeta nasce poeta, e com essa inclinação que o céu lhe deu, sem mais estudo nem artifício, compõe coisas que fazem verdadeiro quem disse:
"Est Deus in nobis". Também digo que o poeta natural, que se auxiliar com a arte, se avantajará muito ao poeta que só por saber a arte o quiser ser. O motivo disto é que a arte não vence a natureza, mas aperfeiçoa-a; de forma que a natureza e a arte, mescladas, produzirão um perfeitíssimo poeta.

Em conclusão, senhor fidalgo, entendo que Vossa Mercê deve deixar seguir seu filho a estrela que o chama, que, sendo ele tão bom escolar como deve de ser, e tendo já subido felizmente o primeiro degrau das ciências, que é o das línguas, com elas subirá por si ao cúmulo das letras humanas, que tão bem parecem num cavaleiro de capa e espada, e o adornam, honram e engrandecem, como as mitras aos bispos, ou como as garnachas aos jurisconsultos peritos. Ralhe Vossa Mercê com seu filho, se fizer sátiras que prejudiquem as honras alheias, e castigue-o e rasgue-lhas; mas, se fizer prédicas à moda de Horácio, em que repreenda os vícios em geral, como ele tão elegantemente o fez, louve-o, porque é lícito ao poeta escrever contra a inveja e dizer nos seus versos mal dos invejosos, e contra os outros vícios, sem designar pessoa alguma; mas há poetas que, para dizerem uma malícia, se arriscam a ser degredados para as ilhas do Ponto[1]. Se o poeta for casto nos seus costumes, sê-lo-á também nos seus versos; a pena é a língua da alma: como forem os conceitos que nela se gerarem, assim serão os seus escritos; e quando os reis ou príncipes vêem a milagrosa ciência da poesia em sujeitos prudentes, virtuosos e graves, honram-nos, estimam-nos e enriquecem-nos, e ainda os coroam com as folhas da árvore que o raio não ofende, como em sinal de que por ninguém hão-de ser ofendidos os que virem com os seus lauréis honrada e adornada a sua fronte.


[1] - Alusão ao desterro de Ovídio no mar Negro, se bem que o poeta não foi desterrado às ilhas, mas as margens do Ponto.



CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de; O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Tomo II, Capítulo XVI.

domingo, 24 de outubro de 2010

Pelos ermos da vastidão...





"Autumn Evening" ~ Franz Von Stuck

Pelos ermos da vastidão,
Onde a luz já morreu,
A calma noite e fria escuridão,
enchem a floresta de breu.

No silêncio mortal,
O guerreiro erra pelos campos,
Na mão, espada letal,
Que leva morte a tetros antros.

Alquebrado pelas vagas da infâmia,
O guerreiro lança-se a solitude,
Revolvido nos vórtices da insânia,
Definhado a decrepitude.

Imerso nos raios argênteos
Que a gélida lua despende,
Enregelado nos mares plúmbeos,
Da morte preeminente.

Evolando-se nas glórias de outrora,
Lamentando o infame "agora",
Que infecta seu espírito
Da modernidade o ignóbil rito.

No negror dos tempos modernos,
conspurcado em igualitários infernos,
Em um mundo não mais seu,
Onde a luz da tradição escureceu.

O guerreiro avança solitário,
Em seu imperium internum imiscuído,
Das virtudes no espiritual relicário,
Porta com o desvelo devido.

Cavalga face a obliteração,
Mantém-se fiel a seu coração,
Que na desonra das cidades viver,
Melhor nessas florestas, pela espada desvanecer...

Tenaglia