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segunda-feira, 20 de março de 2017

A disciplina é sagrada

A disciplina é sagrada, é ela que te faz um bom homem, um homem que pratica boas ações. Uma boa rotina produz um homem bom, tu deves alimentá-la com o fogo do teu ardor, tua fé, é muito fácil descair nas trevas do niilismo, depor as armas contra o destino, e sucumbir na luta eterna que ocorre dentro de nós.

Não te livres dessas agruras pois elas te purificam da vaidade e trivialidade do mundo, em nossa época corrompida em seu fulcro, a disciplina e prática ascética são como a chuva que lava essa sujeira de sua alma.

A solitude pode desorientar um homem se não conduzida por caminhos retos e sábios, se assim for, ela o eleva, muito mais alto que a plebe e massa vulgar materialista, eleva-o aos picos e abismos onde somente a grandeza pode coexistir. Uma solitude assim é sagrada, e deve ser mantida. Essa é a ascese da honra e iluminação.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Childe-Harold

(Sobre uma página de Byron)
 

Não te rias assim, oh! não te rias,
Basta de sonhos, de ilusões fatais!
Minh’alma é nua, e do porvir às luzes
Meus roxos lábios sorrirão jamais!
 

Que pesar me consome? ah! não procures
Erguer a lousa de um pesar profundo,
Nem apalpares a matéria lívida,
E a lama impura que pernoita ao fundo!
 

Não são as flores da ambição pisadas,
Não é a estrela de um porvir perdida...
Que esta cabeça coroou de sombras
E a tumba inclina ao despontar da vida!
 

É este enojo perenal, contínuo,
Que em toda a parte me acompanha os passos,
E ao dia incende-me as artérias quentes,
Me aperta à noite nos mirrados braços!
 

São estas larvas de martírio e dores 
Sócias constantes do judeu maldito!
Em cuja testa, dos tufões crestada,
Labéu de fogo cintilava escrito!
 

Quem de si mesmo desterrar-se pode?
Quem pode a idéia aniquilar que o mata?
Quem pode altivo esmigalhar o espelho
Que a torva imagem de Satã retrata?
 

Quantos encontram inefáveis gozos
Nesses prazeres, para mim tormentos!
Quantos nos mares onde a morte enxergo
Abrem as velas do baixel aos ventos!
 

O meu destino é vaguear e sempre!
Sempre fugindo funeral lembrança...
Férreo estilete que me rasga os músculos,
Voz dos abismos que me brada: - Avança!
 

Que pesar me consome? ai! não mais tentes,
Espera a lousa de um pesar profundo,
Somente a morte encontrarás nas bordas,
E o inferno inteiro a praguejar no fundo!



Fagundes Varella

domingo, 1 de abril de 2012

Resignação

Sozinho no descampado,
Sozinho sem companheiro,
Sou como o cedro altaneiro
Pela tormenta açoitado.
 

Rugi, tufão desabrido!
Passai, temporais de pó!
Deixai o cedro esquecido,
Deixai o cedro estar só!
 

Em meu orgulho embuçado,
Do tempo zombo da lei...
Oh! venha o raio abrasado,
- Sem me vergar... tombarei!
 

Gigante da soledade,
Tenho na vida um consolo:
Se enterro as plantas no solo,
Chego a fronte à imensidade!
 

Nada a meu fado se prende,
Nada enxergo junto a mim;
Só o deserto se estende
A meus pés, fiel mastim.
 

À dor o orgulho sagrado
Deus ligou num grande nó...
Quero viver isolado,
Quero viver sempre só!
 

E quando o raio incendido
Roçar-me, então cairei
Em meu orgulho envolvido,
Como em um manto de rei.


Fagundes Varella

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Protejam-se uns aos outros da solidão



Bewahret einander vor Herzeleid
Protejam-se uns aos outros da dor de coração
denn kurz ist die Zeit die ihr beisammen seid
pois breve é o tempo que vocês passam juntos
Denn wenn euch auch viele Jahre vereinen
Pois mesmo quando vocês estejam ligados durante anos
einst werden sie wie Minuten euch Scheinen
eles parecerão como minutos para vocês

Herzeleid
Dor de coração

Bewahret einander vor der Zweisamkeit
Protejam-se uns aos outros da solidão

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Impressões

Os Deuses observam minhas desgraças? Ouvem minhas lamúrias? Consternam-se por meu rogo? Quando tudo que se ama, escapa de ti como um sonho fugidio, nada resta senão olhar aos céus. O vigor animal não pode salvar-me, enredado na trama de ilusões, quais fui eu mesmo responsável. Eu? Ou a providência? Os sábios de outrora inferiram que o mais nobre dos sentimentos não poderia ser senão a evidência de uma centelha divina em nós...

E cá estamos com essa centelha que não mais que de repente torna-se um vórtice de flamas furiosas que devastam todas as paragens de nosso espírito causando nossa perdição... Seu poder, apenas pode ser necessariamente divino, a alma humana seria capaz de tal potestade? Creio que não. Já no imo seio desse sentimento devastador, seu sentido? Divino? Algo que faz tão mal poderia vir da providência? É possível. Minha condição é certamente deslindada nas profundezas mais inferas da escuridão. E é apenas a escuridão que descubro fomentada em mim.

Eu olhei demais dentro do abismo. E ele me olhou de volta.

Consubstancio-me com ele em sua morosidade secular, eterna, que conheceu decerto vários homens como eu, melhores que eu. Mas os da minha cepa não deveriam estar sempre voando a essas trevas? Pois se elas são inatas ao meu espírito, não o seriam também as grandes altitudes, e esse peso que como o chumbo oprime meu peito não seria outra coisa que a aversão de pulmões aclimatados as condições respiratórias extremas como ao ar rarefeito ou comprimido a essas medianias que me são completamente alógenas?

Ergo, não me escuso de arrostar o punho inexorável do meu destino, se sou fruto da terra, fui semeado em tais singulares condições, meu sangue sabe a esse terra, esse ambiente, essas pessoas, tão atabalhoadas em meu redor que observo em minha placidez estóica. Você porventura ousaria prová-lo? Meu espírito se esvai a medida que meus dedos ágeis retumbam nas teclas desse teclado. Um pouco de mim aqui fica, nessa rede, nessa trama de informações infinitas, as quais as almas curiosas que leem essas linhas também absorvem, homeopáticamente, massacro meus demônios através de vocês, nessas catárticas impressões, tão inebriadas das paixões de minha fera humana, que domo a duros golpes de virtude, alguns falhados, confesso, mas não menos válidos. Controlar-me...

Quando você se acalenta sob a égide dos braços dele, eu apenas desejo que todo o inferno suba a terra.