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domingo, 11 de abril de 2021

Comentários sobre a Bíblia #1

Cá estou eu a escrevinhar novamente, por estes caminhos achei por bem ler a Bíblia, para mim livro arcano, e na ânsia de deslindar sua sabedoria, decidi-lo a ver se me elucidava. Sou humilde e são o suficiente para saber que meus comentários são intelectualmente fracos, não são nada de demais meus caros, apenas observações de um curioso, de um homem que tem a vida espiritual desandada, um homem confuso e simplório, meti-me nesses trabalhos de pseudoexegese a fim de firmar melhor a memória que terei da leitura da Bíblia, para que ela não desapareça da minha mente e torne-se uma vaga memória assim que terminá-la de ler, como acontecera com tantos outros livros que eu lera. Oxalá que tal leitura ilumine os caminhos do meu espírito, que anda tão desnorteado, estupefato ante essa vida material. Que a segurança da sabedoria me afirme em seus braços, eu, que tanto necessito.


"Estabelecerás Aarão e seus filhos para exercerem o ministério sacerdotal. O estrangeiro que se aproximar do santuário será punido de morte”."
Números, 3 - Bíblia Católica Online

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Quão fascinante não é a seriedade com que os antigos levavam a vida espiritual e a oposição aos tempos de hoje, em que nossa relação com o Superior pode-se chamar espúria? Invectivamos nosso espírito e o Santo de todos os modos, por todos os meios, sempre esperando sermos perdoados, sempre apresentando desculpas, sempre confiando que nossas faltas não são tão graves e que nossas ações não tem muito significado, alijando o Divino de nossas vidas, ignorando-o completamente em nosso cotidiano, e por consequência ignorando nosso significado no mundo, pois somente através do Divino, alcançamos nosso significado nesse plano terreno.


"Não entrarão para olhar as coisas santas, nem mesmo um só instante, para que não morram”."
Números, 4 - Bíblia Católica Online

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A glória divina sempre oculta aos olhos impuros, não consagrados. Deus envolvido no véu do mistério, inacessível em sua forma total aos homens não santos, quem poderia enfim, como ser finito, contemplar o resplendor de Deus e viver? Quem poderia compreender o infinito e inteligir a força que sustenta nossa realidade sem ser destruído? Deus somente é parcialmente acessível aos homens e aos seres da natureza.

 

"Se uma mulher se desviar de seu marido e lhe for infiel, 13. dormindo com outro homem, e isso se passar às ocultas de seu marido, se essa mulher se tiver manchado em segredo, de modo que não haja testemunhas contra ela e ela não tenha sido surpreendida em flagrante delito; 14. se o marido, tomado de um espírito de ciúmes, se abrasar de ciúmes por causa de sua mulher que se manchou, ou se ele for tomado de um espírito de ciúmes contra sua mulher que não se tiver manchado, 15. esse homem conduzirá sua mulher à presença do sacerdote e fará por ela a sua oferta: um décimo de efá de farinha de cevada; não derramará óleo sobre a oferta nem porá sobre ela incenso, porque é uma oblação de ciúme feita em recordação de uma iniquidade."
Números, 5 - Bíblia Católica Online

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Em Números 5:11-31, é citado um ritual bastante peculiar sobre a possível infidelidade da mulher. Um homem tomado pelo espírito do ciúme contra sua mulher. Nesse caso em que as provas contra a mulher não são contundentes é realizado uma ordália, em que a mulher jura sua inocência e bebe uma água amarga, uma bebida que é composta de água e poeira do chão do santuário, se a mulher estiver mentindo será amaldiçoada, seu ventre inchará e seu útero definhará, se estiver inocente, nada acontecerá.

É um ordálio bastante interessante, visto que é inócuo e que serve para aplacar os sentimentos de um marido ciumento, um mecanismo psicológico eficaz para se manter a paz num casal em que o parceiro é paranoico.  

 

"O Senhor disse a Moisés: “Dirás aos israelitas o seguinte: 2. Quando um homem ou uma mulher fizer o voto de nazi­reu, separando-se para se consagrar ao Senhor,* 3. se absterá de vinho e de bebida inebriante: não beberá vinagre de vinho, nem vinagre de uma outra bebida ine­briante; não beberá suco de uva, não comerá nem uvas frescas, nem uvas secas. 4. Durante todo o tempo de seu nazi­reato não comerá produto algum da vinha, desde as sementes até as cascas de uva. 5. Durante todo o tempo de seu voto de nazireato, a navalha não passará pela sua cabeça, até que se completem os dias, em que vive separado em honra do Senhor. Será santo, e deixará crescer livremente os cabelos de sua cabeça. 6. Durante todo o tempo em que ele viver separado para o Senhor, não tocará em nenhum cadáver: 7. nem mesmo por seu pai, sua mãe, seu irmão ou sua irmã, que tiverem morrido, se contaminará, porque leva sobre sua cabeça o sinal de sua consagração ao seu Deus. 8. Durante todo o tempo de seu nazi­reato ele é consagrado ao Senhor."
Números, 6 - Bíblia Católica Online

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Nazireu de raiz etimológica Nazîr-Consagrado, quem faz esse voto temporário de entregar-se a Deus, abstém-se de certos confortos, como o álcool, pães fermentados e de cortar o cabelo, a voluntariedade do voto exprime uma qualidade da alma que é divina, a renúncia, pelas austeridades o que se consagra a Deus atinge um maior afinamento com o espírito, com sua própria alma, uma vez que suas atenções se deslocam do material para o espiritual, a renúncia como a bigorna em que o espírito se bate e se fortalece.


sábado, 17 de outubro de 2020

Homem lança-te à ação

Homem lança-te à ação, não há mais tempo a perder. A vida é preciosa. Carregue todas tuas ações com o peso de teu espírito. A capacidade da contemplação é divina, use-a para trazer à tona teu verdadeiro Eu, tu és um oceano profundo insondado. Porque se contentar com as águas da superfície quando o todo de sua alma permanece escondido, suprimido? Quando esqueces de buscar tua verdadeira essência, quando te entregas ao que um mundo iníquo te oferece como alternativa. A vida material só adquire sentido quando permeada pelo poder de teu espírito, que se manifesta através da contemplação ativa.

Expressada através da antiga cosmovisão germânica de desafiar constantemente o destino, não deixar nada para ele decidir, arrojar-se com denodo brandindo a espada do espírito e cravá-la no corpo do destino até o pomo, a despeito das consequências, numa explosão constante de força vital. Existe desprendimento maior? Existe fidelidade mais pura à própria alma, a si mesmo?

Tua missão é escrever o livro de tua história com nobreza. Com a pureza de sua alma, a centelha divina. Comandar teus sentidos e não ser comandado por eles, não desperdiçar a vida com distrações ignóbeis, consciente de sua virtude, o que te põe à parte, num mundo de cegos conduzindo cegos. Pense nos valores que hoje são ditos por bons, são aceitáveis para ti, ou és de uma natureza mais nobre? Ou tuas virtudes são outras?

Os valores atuais desaparecerão com a nossa era, os valores eternos hoje esquecidos pela maioria, mas não por ti, encarne-os. A verdade transcendente está ao seu alcance se te guiares pela natureza de teu espírito.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Se tu és um homem saudável, tens o dever de preservar-te

Se tu és um homem saudável, tens o dever de preservar-te, a saúde enquanto pode-se desfrutá-la é uma dádiva dos céus, e é muito trágico ver pessoas trilhando o caminho da autodestruição hedonista, algo que nossa sociedade incentiva.

Fomos feitos para florestas agrestes, planícies infinitas sob firmamentos desabridos, o ar transcendente da montanha e a doce maresia das benévolas praias de nossa terra.

O contato com a natureza nos banha nas leis sempiternas às quais todos estamos submetidos na condição de mortais, nos lembra que nossa vida acabará em breve, mas ao mesmo tempo nos incita à vida verdadeira, queimar a nossa vida com a flama da vontade, imprimindo no mundo por pouco que seja a realização de nosso verdadeiro Eu. A verdadeira alma.

Como Nietzsche dissera; escrever o poema de nossa vida com sangue. Ou seja, a entrega total a própria natureza, o sangue como símbolo da individualidade perfeita e essência do homem, o fluído vital, um sangue forte que se inflama nas veias e traz ação ao mundo, traz o verdadeiro espírito do homem à luz da terra. O símbolo da unidade de seu ser.

A dissolução é o contrário, é o símbolo máximo da nossa era, a dissolução contra a qual devemos lutar, quando perdemos nossa essência, quem realmente somos, nossa visão embaciada pelos confortos e distrações, o sangue se torna aguado, a vontade se dissipa, a verdadeira natureza obliterada.

O conforto como arma de dissuasão. Tudo que o sistema oferece em profusão, entretenimento eterno. O homem se entretém não só das suas preocupações, ao buscar isso, ele se entretém de si mesmo, a mente estando nessa situação precária de torpor espiritual, revolta-se, e assim constatamos as altas taxas de doenças mentais no mundo moderno, suicídios... Não são doenças em si, mas sintomas, um modo da mente dizer "homem, abandona esse estilo de vida doentio, sê fiel a ti mesmo".

A dissolução da verdadeira natureza, do Eu, é a arma pela qual a cultura moderna desarma o espírito do homem, e o integra a massa conforme. 

À lúrida sedução dos vícios e confortos modernos, a esse canto nefasto das sirenes, ao qual Odisseu tivera de se amarrar no mastro de seu navio para não ceder, isso também um símbolo. À mórbida dissolução através do prazer, poucos homens tem a hombridade de resistir. Seja um daqueles que escreve a vida com seu próprio sangue, a morte não parecerá mais tenebrosa.


sábado, 12 de setembro de 2020

Reflexões 3

Existem certas imagens ou cenas que se mantidas em tua mente são capazes de mudar o teu destino, são como aguilhões que te impulsionam avante, quer tu queiras ou não, têm um alto poder sugestivo e se tornam molas para a ação, vai em conformidade com o velho adágio "tu te tornas naquilo em que tua mente se foca", isso é realmente vetusto, os antigos faziam uso desse mecanismo psicológico na religião ao impregnar a mente do homem com as ideias de Deus e as virtudes com os mantras e orações.

Os sonhos porém, eu diria que são os maiores detentores desse poder de sugestão, pois neles as ideias e imagens se apresentam de modo tão vívido que inflamam todas as paixões do homem, seja para ascensão ou decadência. Pode ocorrer o mesmo também com pequenos acontecimentos na vida real aos quais se atribuam o significado de sinais e presságios.

Ao homem suficientemente atento, nunca haverá falta de significado na vida cotidiana, afinal o éter é sempre loquaz e faz-se presente através de pequenas coisas.

Mas eis o fado do homem, esquecer-se dessas pequenas coisas e também dos sonhos mais inflamados e ideias persistentes que com o passar do tempo não mais resistem, pois a impressão que causaram no espírito se desvanece à medida que novas impressões se alojam na mente, assim, o poder sugestivo das impressões originais se torna cada vez mais fraco.

Para manter o espírito aceso é necessário ter consigo imagens, mementos que mantenham a impressão que se quer preservar viva, as ideias, repassá-las na mente diariamente, assim essas ideias que são as molas de ação da virtude, jamais se enferrujarão.

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Não tenhais pena de vós mesmos

Homotimos, não tenhais penas de vós mesmos no combate diário contra a mediocridade e a dissolução do verdadeiro 'eu', que se constrói através da disciplina constante, nada pode parar o espírito que se arroja à um escopo com todo o ardor e comprometimento que possui em si. 

 

A disciplina é sagrada e fortalece o espírito; ao mesmo tempo é frágil e se dissolve com ligeireza, uma vez consolidada a sua disciplina, um homem deve fazer quanto puder para proteger seus hábitos salutares da perdição da procrastinação e o mal que essa desencadeia. 

 

A disciplina deve ser protegida, um dia deve se parecer com o outro, porque o que é proveitoso, tornando-se hábito, fortalece o homem, e um cotidiano assim deve ser conservado e cultivado, para que a força e o espírito ampliem seu alcance na existência humana.

quarta-feira, 27 de maio de 2020

A disciplina fortalece o espírito

Dentre as forças desagregadoras do espírito e que causam maior desordem em ti, a indisciplina, a fraqueza de sua alma, que dá azo a toda sorte de vício e dissolução, tua perdição começa quando tu não observas aquilo que para ti mesmo decidiste como assisado.

Descaindo então de um vício a outro, da acídia à lascívia, desta à gula, da gula à indolência, desfigurando de tal forma teu verdadeiro ser, vai-te levado pelas águas do tempo hodierno, qual todos os desvairados que se tem por "normais". Paixão após paixão, êxtase após êxtase num encadeamento profano. 

Eis a vida do niilista, que na terra somente vive para seu ego. O mundo começa e acaba em si, assim é o homem que vive para prazeres. Teus cabedais de deleites hão-de esvair-se, que sobrará senão uma casca tíbia, pobre em espírito e sabedoria; irresoluta, acossada pelos terrores pânicos, uma mera sombra do que fora um homem de verdade?

Abundante em força e totalmente plena porém, é a vida do homem símplice, que entra com a prática dos ancestrais, fortalecendo-se em disciplina, as vicissitudes da vida a ele não atemorizam, vive como homem, cai como homem, em honra, ciente que sua vida não é desperdiçada com prazeres vãos que são acessíveis a qualquer um, e que mesmos os animais tem em comum com os humanos, prazeres vulgares.

Os prazeres, justos e nobres do homem disciplinado, ele os tem em comum somente com outros homens tão nobres quanto ele. A maestria em uma arte, a vitória sobre um obstáculo hercúleo, o domínio sobre si, o conhecimento de si, a constância e resolução no cumprimento de seu verdadeiro eu, a perfeição do espírito e a obtenção da virtude e sabedoria.

Nada disso se pode comprar, nada disso é efêmero, nada disso é acessível ao homem vulgar. Somente o que se dispôs a grandes labores, e depois de ter feito grandes correrias, e se aplicado às magnas disciplinas, e longas contemplações.

Digo-te, cria tua rotina, teus exercícios, adira ferrenhamente a tais práticas, não percas mais dias pois os dias são escassos e os trabalhos para teu espírito são muitos, e triste será se a morte chegar antes que tenha sublimado tuas potencialidades, e tiveste gasto os seus anos e forças, na busca de simples prazeres vulgares que em si não encerram valor algum, nem podem ser o significado da vida.

Homotimos, se vos interessais, convido-vos a visitar minha página no twitter, pois que lá voltei a postar, e muito folgaria de entreter-me convosco, que sois nobres e justos:

sábado, 16 de maio de 2020

Medo

Não devo temer.  Medo é o assassino da mente. Medo é a pequena morte que traz obliteração total.  Eu enfrentarei o meu medo. Permitirei que ele passe sobre mim e através de mim.  E quando tiver passado, eu vou virar o olho interno para ver seu caminho.  Onde o medo desapareceu, não haverá nada.  Só eu permanecerei.

Litania Bene Gesserit, 

Frank Herbert, Duna

Te faz jazer na zona de conforto sempre, aniquila qualquer força viril do espírito, corrompe tua própria essência e te aparta da vida, como a natureza o intendera. No fim, o medo redunda na auto-preservação a qualquer preço, a aversão à dor, e o sequestro do espírito e a catividade deste eternamente ao plano material e suas consequências, incapaz de transcender a mesquinharia do prazer e dor terrenos, assim é o espírito preso pela ignorância de si mesmo, e da natureza como um todo, sem espírito de sacrifício nem por si nem por outros, somente pusilanimidade. O medo é o êmulo efêmero ctônico da sempiterna honra celeste. Mas tal qual o demônio que se cinge de ilusões para homiziar sua verdadeira natureza e fazer parecer o seu inverso, o medo aleivoso constrói químeras em tua mente e imagina a honra transcendente como algo totalmente imaginário e uma vil existência terrena como tudo o que há ou houve no universo. Somente o homem sábio e virtuoso consegue enxergar a realidade, mas eu to digo, como amigo, a coragem vale a pena é rara e tinge a vida do homem bom de variegados belos tons, o medo porém é somente uma imensa gradação de cinza e negro, ubíquos em todas as eras e lugares por onde viveram homens nada dignos se nota senão de piedade. Viver preparado e meditar na grande travessia, e ter ombridade quando a hora chegar. Eis o influxo de coragem.

Medo do próprio julgamento

Muitas vezes te coíbes, desacreditas de teus próprios sonhos, temes que os reveses façam tua consciência, de ti o maior algoz, mas de novo, quem é o locutor dos insultos e imprecações que contra ti em sua mente se lançam? Seriam o medo, a mesquinharia, a pequenez, o desejo de se contar entre os homens que são aprovados pelos valores contemporâneos? Porque ao invés não ouves o espírito!? Porque não segues os nobres e grandiosos exemplos dos antigos, nossos pais!? Porque o medo e o vício se alojam em ti, e o permites porque deles provêm prazer terreno, e essa é a grande batalha de todo homem, alijar-se das constrições do medo, e ser fiel a si mesmo, aos sonhos divinos, que são sempre bons, sempre virtuosos, que nos agraciam Deus e a natureza.

Os sonhos cobram um preço

Trabalhos, sacrifícios, determinação, grandes correrias, determinação, sangue, e por fim toda a vida. Não subtraia de ti essa grande jornada, não a deixe de trilhar, pois essa é a sua natureza, não deixe a idade avançada chegar e tudo o que pudeste fazer em teus verdes anos foi somente gozar prazeres carnais estupefacientes, embrutecedores e vis. Siga o caminho.

Necessidade da declaração

HEFESTO
 A linguagem que tu empregas vai bem com teu íntimo.

Prometeu Acorrentado, Ésquilo

Tua natureza exterior deve refletir tua natureza interior o máximo que puderes fazer. O espírito necessita expressão, e nossos tempos, são senão os mais vulgares de todas épocas. Imitar os costumes atuais é garantia de se perder. Em tudo deves ser diferente dos que vivem hoje, ao invés da vulgaridade escolha a nobreza, invés do comum escolha o raro, do fácil o difícil, do venal o merecido, da corrupção a virtude, em tudo siga a sabedoria antiga, para assim lançar as fundações de uma nova. O espírito necessita expressar-se, que essa expressão seja a mais nobre e reflita sua natureza.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Lute para vencer

A vitória reforça a si mesma. A vitória, pelo menos uma, desanuvia o caminho do sucesso, dissipa a incerteza, traz a confiança do caminho certo e dos sacrifícios necessários para atingi-lo.

A mente torna-se una, focada no objetivo, e as duvidas já não tem azo na mente do homem que experimentou a vitória e sabe o que é necessário para obtê-la.

Não seja um NPC. Exaura sua individualidade, vá até o limite das tuas potencialidades. Não se contente com a mediocridade ou ser "normal". Queime a chama de seu espírito nos seus sonhos e atos. Seja fiel a ti mesmo.

Nos jogos de computador ou console, NPCs(Non Playable Characters/Personagens não jogáveis) são os personagens que estão no jogo apenas como parte da ambientação, são intercambiáveis, não há nada de especial neles, eles são a média de um determinado mundo, a morte ou vida deles nada significa senão como parte do roteiro de um sistema.

Outro dia eu estava a comentar com um colega de trabalho, sobre como eu estava sendo indolente com meus estudos depois do expediente, então ele interveio:

— Mas que dizes meu caro? Mais certo é que um trabalhador como ti, após a estafa diária, indulgencie-se nos refestelos que mereces, seja nos ígneos reflexos do vinho ou nas leves trivialidades do entretenimento que nos faz esquecer o pesadume de uma rotina ordinária.

Nessas palavras eu vira um convite à mediocridade, como se por eu ser trabalhador e me alquebrasse na lida diária, isso escusasse minha indisciplina com meus estudos, e com aquilo que eu amo, meu espírito, meu verdadeiro eu, e justificasse minha embriaguez com as distrações do mundo, com as "diversões" nada construtivas, que se destinam na nos distrair de quem realmente somos, a nos distrair de nossas vidas.

Eu dissera então, ironicamente:

— Por justo confrade, tendes razão, afinal que bem fazem ao operário estafado, os doutos tomos e meditação nos vetustos valores já desvanecidos? Folgar-me-ei com vinho, teatro e donzelas, sempre que puder.

Disse isso por não querer justificar a ele as razões ulteriores de eu não me corromper com a diversão espúria moderna, mas a fala dele, indiretamente, como em um dialogo socrático, fizera-me ver o erro dos meus caminhos e como ao negligenciar aquilo que nós amamos, seja por dificuldade ou cansaço, nós abdicamos quem nós somos para nos tornarmos pessoas sem alma, potencialidades que nunca serão plenas pois estão entretidas, entretidas até a morte. Domesticados pelo pérfido porém sedutor chamado do conforto, aquele que mata o espírito e os sonhos.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Manter os inimigos próximos

Sempre soou-me que esse adágio serviria para ter conhecimento das atividades dos inimigos, para se manter inteirado sobre seus planos.

Mas recentemente pareceu-me também que essa frase tem outro significado, o de não alienar-se do mundo real.

A maldade, mesquinhez e egoísmo humanos são a realidade, se nos insularmos de sua presença ignóbil, tendemos a esquecer que eles existem, e nos tornarmos macios e ingênuos, ignorando que essa sorte de atributos maléficos eventualmente achará seu caminho até nós, e nós não estaremos preparados para tal reencontro. Como o interiorano no seio de sua pequena comunidade rural, que de repente se acha defronte a todos os vícios urbanos, e se torna presa fácil deles.

Manter os inimigos próximos significa, estar ciente da maldade humana, e consciente que sua ausência é somente temporária, o indivíduo prepara-se, para refutá-la, subjugá-la e expurgá-la de sua comunidade e seu seio familiar, colocando-se numa posição de poder e determinação.

"Mesmo que o espírito esteja calmo, não deixe o corpo relaxar; mas quando o corpo estiver relaxado, não amoleça o espírito" ~ Miyamoto Musashi, Livro dos Cinco Anéis, Livro da Água.


segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A verdade não teme escrutínio

O calor da batalha é o juiz mais imparcial e justo. Nós devemos nos pôr a teste, verificar nosso poder constantemente, nosso corpo enquanto tivemos vigor, e nosso espírito sempre. Muitos usam a desculpa da idade para abster-se do tumulto e caos do combate eterno, deveras, nosso corpo decairá, mas nosso espírito, a despeito da decadência corporal que acompanha a idade, pode permanecer acerado e duro se assim nos dispusermos.

A essência do cultivo do espírito necessariamente vai pela disciplina, moral e virtude. Não há como manter um espírito forte e puro se não praticarmos nesses três fulcros, quando indulgimos na degeneração moderna, nossos corpos parecem ser afetados, mas de fato, nosso espírito é o que se afeta mais profundamente, isso é com efeito muito sério, afinal um corpo corrompido pode se regenerar com relativa facilidade contanto que exista vontade para isso, ao contrário é, todavia, o espírito corrompido, esse, com muitos esforços pode ter uma perspectiva de regeneração.

Musashi dissera em seu livro dos cinco anéis que quando o espírito estiver relaxado o corpo deve manter-se tenso, o corpo tenso, o espírito relaxado. Isso é muito adequado, o conforto e segurança da vida moderna permite-nos relaxar nosso espírito à níveis perigosos, onde ficamos suscetíveis a todo tipo de corrupção, que sorrateiramente nos é instilada pela mídia, noticiários e cultura em geral, também, eu diria, quando somos forçados a conviver com gente de mentalidade plebeia, como no trabalho ou faculdade por exemplo. Assim nós nos esquecemos do combate eterno, nos acomodamos, nos tornamos fracos e corruptos.

A adversidade nos torna afiados, quando sabemos que teremos de usar nossos corpos numa batalha inexorável e fatal contra hordas inimigas, quando sabemos que esse é nosso destino, o curso de ação em face disso é nos tornarmos saudáveis, hábeis, fortes e vigorosos, tornar nossos corpos uma reflexão de nosso espírito.

Quando sabemos que nossa inteligência será usada para guiar aqueles que amamos na escuridão da tirania vindoura, aproveitamos cada momento para estudar, pesquisar, inquirir e consumir toda sabedoria disponível através dos livros.

Lance-se as flamas, elas te julgarão nobre ou ignóbil.

sábado, 26 de setembro de 2015

O poder da personalidade na guerra III

Um fardo muito mais pesado do que aquele da mais violenta batalha ofensiva, porém, tem de ser carregado pelo chefe quando a batalha toma uma forma desfavorável. Simplesmente trágico é seu destino quando não mais consegue despertar o entusiasmo e a esperança em todos os outros através do fogo que arde em seu coração e da força e da força da sua determinação; quando não mais consegue manter sua ascendência sobre as massas e permanecer seu senhor.

O primeiro ataque prussiano contra o flanco direito do exército francês em Waterloo foi temporariamente refreado às 19 horas e Napoleão enviou sua última reserva, dez batalhões de guarda, para um ataque decisivo ao flanco esquerdo de Wellington. Quando sua última tentativa de mudar a sorte do dia fracassou, quando estas seletas tropas que ostentavam a tradição de invencibilidade recuaram, o imperador finalmente bradou: "C'est fini." Esta expressão mostrava que havia chegado o momento em que "o peso da massa o arrastara para o mesmo nível em que esta se encontrava, para as profundezas de uma mera natureza animal, que recua ao medo e não sabe o que é vergonha". ~ Hugo von Freytag-Loringhoven, O poder da personalidade na guerra, capítulo 7.


"Por mais selvagem que seja a natureza da guerra, ela encontra-se dentro da esfera da fraqueza humana" ~ Carl Von Clausewitz, Da guerra, Volume III, Capítulo 16

"Riquezas, bens materiais e números não são as únicas coisas que contam; existem outros elementos não físicos que podem trazer a vitória, a educação do povo; ordem e subordinação, que dão forma à massa; disciplina, que a torna utilizável e que, mesmo no infortúnio, faz com que tenha confiança em si mesma; o incentivo de vidas ilustres, que fortalece o espírito; determinação que controla tudo; e poder intelectual, que nos orienta em direção ao objetivo desejado." ~ Droysen, Frederico, O grande

"Quando Gneisenau estudou os homens para ver se o seu espírito poderia ser 'elevado', pareceu-lhe que o espírito de Frederico havia atingido o zênite de sua influência. Frederico era possuidor de uma determinação inesgotável segundo a qual agia, e, conforme foi dito por Fichte, é esta determinação e não a força das armas que alcança a vitórias. Era esta força mental que apoiava Frederico em suas mais profundas desventuras, que o fazia elevar-se mais alto do que nunca ante a adversidade e que o tornava merecedor do título de "O Grande". A história das desventuras de Frederico ilustram uma descrição poética do destino como aquela que enaltece um homem que embora o subjugue." ~ Koser, Frederico, O grande

"É preciso acreditar firmemente no valor de princípios bem testados e lembrar-se de que  impressões momentâneas, embora fortes, são duvidosas. Nossa crença nestes princípios e nossa desconfiança entranhada nas sensações transitórias nos ajudarão a nos manter firmes nas decisões basicamente corretas quando nos sentirmos tentados a duvidar delas, e nossas ações assumirão aquela firmeza e consistência a que chamamos de caráter" ~ Carl Von Clausewitz, Da guerra, Volume I, Capítulo 3

"A expressão 'força de caráter', ou simplesmente 'caráter', significa uma adesão firme às nossas convicções, quer estas convicções sejam o resultado do nosso próprio pensamento ou de outrem, quer sejam classificadas como princípios, opiniões ou aspirações do momento. A expressão aplica-se, apenas, àqueles que mantêm-se firmes às suas convicções. Aquele que continuamente muda de opinião não possui caráter." ~ Carl Von Clausewitz, Da guerra, Volume I, Capítulo 3

"Aquele que compreende a natureza de uma decisão em questões práticas, especialmente na guerra, onde esta deve tomada sob o peso de uma grande responsabilidade e em meio a milhares de incertezas e contradições, chegará à conclusão de que as decisões não podem ser tomadas sem que haja muitas dúvidas, e aquilo que pode parecer um problema muito simples, muitas vezes não pode ser resolvido sem que haja uma grande determinação. A elaboração de planos para operações militares é, portanto, a parte mais fácil de um planejamento, embora para que este tenha êxito, ele necessita, obviamente, de ser sólido." ~ Carl Von Clausewitz, A Campanha de 1799 na Itália e Suíça.

O significado da honra para um soldado

A significação moral da guerra manifesta-se em tudo que aparece em conexão com ela, e não nela. Onde quer que surja um conflito na vida humana, relacionado a qualquer coisa melhor do que ganância ou crueldade cegas, de ambos os lados, onde quer que haja até mesmo o mais tênue brilho daquilo que os homens chamam de dever, encontraremos sempre aquele sentimento misterioso e exaltado chamado honra, cuja penetrante suavidade não é suscetível de comparação, uma vez que, confrontado com ela, o valor da própria vida tem o peso de uma pena. O sentimento de honra pessoal, de auto-respeito, que eleva o homem acima da condição da vida comum, não é nada mais do que uma concentração de nobreza no indivíduo. Para o soldado, ele surge como uma crença sagrada e uma prerrogativa especial. O soldado zela cuidadosamente por sua honra, pois, para ele, esta é a única coisa que o coloca acima da sua caricatura, o gladiador.

Os pacifistas procuram rebaixar o soldado ao plano de sua caricatura, pois não possuem nenhuma idéia da verdadeira natureza humana. Não possuem nenhum discernimento acerca da grandeza do sacrifício e do sofrimento exigidos pela guerra. Eles também não compreendem que existem homens que conseguem ver a morte gloriosa como a grande realização de suas vidas.

O significado moral da guerra

Consciente ou inconscientemente, esta má compreensão do significado moral da guerra revela uma incapacidade de compreender o caráter humano; ela advém de uma filosofia de vida puramente materialista. A base real da doutrina da paz eterna não é nada mais do que egoísmo e amor ao conforto disfarçados sob um vago idealismo. Essa tendência ignora totalmente o fato de que pode-se encontrar um idealismo muito mais sadio aceitando-se a vida como ela é.

A história nos ensina que as nações que não se encontram prontas a defender sua honra, com armas, invariavelmente entram em declínio. É oportuno, portanto, sempre que a sociedade volta-se para uma luxúria descuidada, não refreada por quaisquer considerações morais, que surja no horizonte aquele tipo de ansiedade política, aquele restaurador do dever cívico, a guerra. A paz eterna seria um destino perverso, porquanto seria adquirida, unicamente, ao custo das mais nobres qualidades e dos mais altos fados do homem. 

A necessidade de se desenvolver e manter um espírito guerreiro

Devemos, portanto, estar cônscios do nosso dever no sentido de despertar e desenvolver estas qualidades nobres e de nos proteger contra a sentimentalidade doentia. "Se a guerra sangrenta é um espetáculo horrível, isto deve nos advertir para a colocarmos em um plano superior e não para, por um falso sentimentalismo, embotarmos nossas próprias espadas, pois pode surgir um inimigo cuja a espada ainda esteja afiada." As condições mundiais certamente não são como as atuais (1911) para encorajar-nos a pensar que conflitos armados entre nações são uma coisa do passado. Já pudemos ver em nosso próprio país (Alemanha) os efeitos das doutrinas enganosas do pacifismo, agora tão amplamente difundidas, e fomos cruelmente punidos por isto. As fracas teorias filantrópicas que controlavam as classes mais altas de nosso povo em 1806 foram em muito responsáveis pelos desastres ocorridos naquele ano. Muitos dessa geração haviam perdido totalmente a compreesão da realidade da guerra e do verdadeiro sentido da atividade militar, porém recordaram-se dos mesmos nos anos de dominação estrangeira.

Heinrich von Treitschke caracteriza extraordinariamente o desastre de 1806 quando diz que ainda hoje o sentimos, em meio à nossa gloriosa história militar (1911), "como um sofrimento pessoal". A partir disto, devemos nos prevenir contra as tendências que nos desviam dos verdadeiros objetivos de nossa profissão. Tais tendências manifestam-se de diversas formas. Algumas vezes, encontram-se ocultas em meio a nuvens de uma pseudofilosofia, enfraquecendo nossa noção do dever militar, destruindo nosso prazer pelo trabalho e até mesmo nos sugerindo que aquilo pelo que trabalhamos já está obsoleto.

Não há melhor proteção contra essas influências do que a vigorosa ética de Clausewitz. O seu trabalho é baseado na experiência de uma época que assistiu à súbita queda e à rápida e estarrecedora ascensão de nosso país. Em 1813, Clausewitz viu o serviço universal desenvolver-se a partir das necessidades da guerra. O nosso dever, hoje, é manter as valiosas qualidade militares que surgiram no nosso exército nacional naquela época e que,  três gerações depois, nos inspiraram em três guerras vitoriosas. É nosso dever treinar essa "nação em armas" para a guerra moderna. Portanto, devemos nos empenhar em desenvolver uma sinceridade de propósitos quanto a isso, apesar das tendências desagregadoras dos tempos. O estabelecimento de uma crença nacional na necessidade suprema de se obter a vitória na guerra deve ser o verdadeiro objetivo na nossa vida, pois esta convicção é a essência de um caráter militar.

Os métodos que adotamos para realizar o nosso grande objetivo irão diferir tal como os métodos pelos quais esta convicção é formada em diferentes pessoas. Homens como Scharnhorst, Gneisenau, Lee, Moltke, adquiriram a capacidade de inspirar um grande empenho e auto-sacrifício nos outros através de uma autodisciplina rigorosa e de uma forte fé religiosa. A pureza de caráter destes homens era tão evidente que eles pareciam ser a encarnação do líder ideal formulado por Clausewitz. A religião destes homens era o mais autêntico cristianismo, e a partir dele adquiriam aquela humildade que os tornava fortes contra todas as dificuldades.

Os chefes militares devem ser julgados pelos resultados

A familiaridade com o combate, muitas vezes, é causada por um certo fatalismo, o qual, para muitos soldados, torna-se um substituto para religião. A vida na guerra tende a fortalecer os homens, e mesmo durante o período de paz, o contexto no qual um soldado passa os seus primeiros anos de serviço determina em muito seu caráter. Portanto, dever-se-ia dar maiores concessões a esta circunstância do que normalmente se dá ao se julgar os militares. Julgar Blucher, que uma vez incorporou todo espírito militar do nosso povo, somente sob um ponto de vista filisteu e moralista seria um erro crasso. A vida rude do campo, que Blucher adorava, era repugnante para o seu chefe de estado-maior, Gneisenau. Ele, porém, compreendia o seu chefe, tolerava suas fraquezas secundárias e via, apenas, as suas grandes e heróicas qualidades. Assim como Gneisenau, devemos prestar honras às grandes virtudes militares, mesmo que, no homem, a grandeza não seja alcançada em todos os seus aspectos.

O ponto essencial é, e sempre será, que um homem deve entregar-se totalmente a uma grande causa, não deve procurar satisfazer sua vaidade, e nem tampouco tirar vantagens pessoais. Visto sob este prisma, o empenho em expressarmos a nossa própria personalidade não é um fim em si mesmo; é simplesmente um meio para nos preparar para aquilo que mede o valor de um homem na guerra, isto é, o que ele faz em ação. ~ Hugo von Freytag-Loringhoven, O poder da personalidade na guerra, capítulo 9