Há tanto a saber sobre estilo: por que ter estilo, qual o sentido do mesmo? Seria talvez a beleza? O estilo nos desvia do utilitarismo estéril, confere, de algum modo, um sentido oculto às nossas ações; tem uma ligação com o ritual, mas não se limita a ele. É um amplo espectro de sentidos que orienta nossas ações e reforça nossa individualidade.
A arte é a fonte primeira do estilo, seguida pela intuição; de todo modo, deixar-se guiar por ele torna mais completa a vida do homem, separando-o da grei amorfa. Demonstra que ele teve o cuidado de embelezar suas ações e palavras.
O estilo em um homem colore sua alma, é deveras agradável e engrandece a sociedade como um todo, tingindo-a de uma complexidade estética que os mestres tecnocratas procuram tanto abolir. Eleva-o e eleva também os que estão ao seu redor.
As tentativas de estilo são mormente ridicularizadas; contudo, nós, homens de espírito, não devemos nos deixar tolher por causa disso. Cabe-nos transpor os limites daqueles que têm a alma cinza, pois é da arte que flui o estilo, e um mundo sem arte não é humano.
segunda-feira, 7 de julho de 2025
Estilo
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
Retifique suas palavras
Considere seu vocabulário, como isso afeta seu modo de pensar. Isso pode parecer críptico mas palavras carregam poder, senão poder físico, psicológico. Como pequenas incisões de energia na sua mente, pense de modo negativo por tempo suficiente e tua mentalidade se tornará negativa.
O mesmo se dá num plano estrutural maior, as palavra com as quais tu expressas pensamentos, mesmo teu dialogo interno, que é o que importa, qual a qualidade das tuas palavras? Qual a energia delas, a essência, o âmago? Tendem elas a que fim metafísico?
Supondo que um homem pensasse e falasse majoritariamente em jargão técnico de engenharia, poderia ele encerrar alguma poesia em suas palavras? Haveria beleza? Certamente não, se houvesse seria muito pouca, essas palavras porém o orientariam a um entendimento mais claro de sua ciência, a estrutura de seus pensamentos tenderia a se organizar de modo científico e distinto.
Não podemos supor o mesmo para o homem que fala de modo vulgar? Seus pensamentos se tornarão vulgares como reflexo do meio pelo qual os expressa. Não há beleza na linguagem vulgar, apesar dela ser mais fácil de transmitir um pensamento. Esse pensamento é rebaixado, como se um pintor usasse apenas tintas e pinceis de péssima qualidade em sua tela, por mais que ele fosse hábil ela não ficaria tão bela quanto se ele usasse materiais dignos de sua habilidade.
Com o tempo nossos pensamentos se igualam à qualidade de nossas palavras, e falando vulgarmente nossos pensamentos se tornam vulgares, fracos. A beleza revigora o espírito, buscando palavras belas, profundas, fortes, antigas. Assim distinguimos nossa verdadeira natureza da sujeira que é a vulgaridade, limpamos nossa mente daquilo que não é digno de nós. A beleza então pervade com mais facilidade todas as camadas de nossa psique.
Em verdade, falar de modo nobre é como aprender uma língua nova, infundir a nobreza em si através do idioma, um idioma belo, que não deveríamos jogar na lama sendo vulgares.
domingo, 11 de outubro de 2020
A dor silenciosa da alienação, e da solitude eterna
A dor silenciosa da alienação, e da solitude eterna, pestilência do homem soçobrado nas ruínas do mundo moderno, cá estamos amigos, na hora mais franca, onde olhamos com sinceridade o abismo que existe dentro de nós mesmo, com sua feiura e hediondez, não devemos fechar os olhos, nem desviar o olhar.
Lá eles estão, todos os pensamentos e sentimentos mesquinhos, torpes, pusilânimes e iníquos. Todos os traumas, compulsões e medos. Não os renegamos, eles estão lá, reconhecemos, nem mesmo os suprimimos como pensamentos. Caminhamos a despeito de tais pensamentos e sentimentos, reconhecemos a fragilidade humana, Mas isso não nos detêm, porque não é o nosso verdadeiro Eu.
Todo homem, quando ciente de sua própria essência, sabe o que fazer para torná-la mais forte, qual senda trilhar e sofrimentos sofrer. Quando seu Eu é ofuscado, por toda sorte de impulsos animais, corrompido por uma sequência infinita de estímulos através de mídias, o homem angustiado busca conforto na saciedade da lascívia, gula, acídia, que são convenientemente apresentados a ele pelo sistema como o bem supremo, o perpétuo conforto, entretido até a morte.
Mas o homem que vive assim jamais encontra saciedade ou plenitude, pois não é da natureza do vício outorgar plenitude ao viciado, o vício é como o chantagista que uma vez que tu o pagaste, ele te deixará em paz durante um tempo, mas ele sempre retorna exigindo mais. E toma, para além de sua saúde, finanças e reputação, o tempo, o bem mais precioso do homem.
A juventude desperdiçada. É a maior tragédia que pode assolar um homem. E assim assola o homem que não conhece a si mesmo. Ou que nem ao menos tenta conhecer-se, não busca qualquer introspecção, que não mergulha profundamente em si, no seu espírito, mente, essência, e volta com a luz mais pura perante os olhos, uma luz que não se extingue e o acalenta pelos períodos mais conturbados de sua vida. Ele traz essa luz divina do seu verdadeiro Eu ao mundo material. Tinge o mundo com sua cor verdadeira, quintessencial, a contribuição de seu espírito para a beleza do mundo.
Quando tem a essência de seu espírito em perspectiva, o homem torna-se consciente de seus pensamentos ruins, não os reprime, apenas deixa-os minguar como sintomas de uma doença que começa a ser curada, como a planta que outrora privada da luz solar, agora banhada em seus cálidos raios, recupera seu verdor. Assim é o homem fiel a sua verdadeira natureza, o espírito que é a centelha divina.
terça-feira, 13 de outubro de 2015
Que minhas palavras não sejam dissolutas
sexta-feira, 18 de março de 2011
Da mulher Normanda
...Quero falar dessa carne luminosa de rosas fundidas e tornadas fruto sobre faces virginais, dessa pérola de frescura das mulheres Normandas, junto à qual o mais raro nácar das ostras de seus rochedos parece falho de transparência e de umidade. Nessa época, os cuidados da vida ativa, as preocupações do dia a dia deviam ter extinguido no rosto de Jeanne essa tonalidade de lágrimas da Aurora transformando-a num tom mais humano, mais digno da terra de onde saímos e aonde não tardaremos em voltar: o tom melancólico da laranja, pálida e emurchecida. Grandes e regulares, as feições da senhora Hardouey tinham conservado a nobreza que perdera pelo casamento. Estavam apenas um pouco bronzeadas pelo sol e pelo vento, e salpicadas desses grãos de cevada, saborosos e ásperos, que de resto tão bem ficam ao rosto de uma camponesa. A centenária condessa Jacquilene de Montsurvent, que a conheceu, e cujo nome aparecerá muitas vezes nestas Crônicas do Oeste, contou-me que era sobretudo nos olhos de Jeanne-Madelaine que se reconhecia a Feuardent. Por qualquer outro traço, seria possível confundir a mulher de Thomas Le Hardouey com as camponesas dos arredores, com essas magníficas mães de soldados que deram ao Império os seus mais belos regimentos, mas pelos olhos não! Não havia engano possível. Jeanne tinha os olhos de falcão da sua raça paterna, as grandes pupilas de um azul índigo, carregado, escuro como as profundezas mais recônditas do pensamento, e que eram tão características dos Feuardent como os esmaltados do seu brasão. Não há como as mulheres ou os artistas para reparar nestes pormenores. Naturalmente, tinham escapado a mestre Louis Tainnebouy, como muitas outras coisas, de resto, quando me contou a história que mais tarde completei, naquela charneca de Lessay onde nos encontramos. Ele, o meu rústico criador de gado, julgava um pouco as mulheres como julgava as bezerras do seu rebanho, como os pastores romanos deviam julgar as Sabinas que tomavam nos seus braços nervosos; só vira nela os sinais de força e as aptidões da saúde. Com a sua estatura média, mas harmoniosa, as suas ancas e seios proeminentes, como todas as suas compatriotas cujo destino é serem mães, se Jeanne não parecera a mestre Tainnebouy uma mulher bela, impressionara-o ao menos como sendo uma bela mulher.
Por isso, quando me falou dela e se bem que Jeanne tivesse morrido já havia vários anos, o seu entusiasmo de boieiro Normando exaltou-se e atingiu vibrações soberbas.
— Ah! senhor — dizia-me, batendo com o cajado de freixo nas pedras do caminho — era um belo pedaço de mulher! Era preciso vê-la a regressar do mercado de Coutances, no seu cavalo baio, um cavalo inteiro, violento como a pólvora, e sozinha por minha fé! Como um homem, levando na mão o seu chicote de couro negro, de punho envolto em seda vermelha, com o seu corpete de pano azul e a saia de amazona aberta de lado e presa por uma fiada de botões de prata! Arrancava chispas ao pavimento, senhor! Não havia em todo o Contentin uma mulher que se lhe pudesse comparar!
D'AUREVILLY, Barbey, Enfeitiçada, Capítulo V, página 83.
