quarta-feira, 22 de abril de 2015

O poder da personalidade na guerra I

"Um exército fortalecido pelo hábito da moderação e do esforço físico, como são os músculos de um atleta; um exército que considera os sofrimentos como um meio de alcançar a vitória, e não como um castigo colocado sobre sua bandeira; um exército no qual todas as virtudes e deveres estão encarnadas em um único objetivo, a honra de suas armas; este é o exército que realmente possui um verdadeiro espírito militar." ~ Carl von Clausewitz, Da guerra, volume III, capítulo 5.

"Para soldados treinados, a batalha em Katzbach pode não ter sido uma derrota. Na pior das hipóteses, teria sido um revés, facilmente reparável. Porém com simples rapazes, soldados da noite para o dia, foi o princípio de um desastre. Por outro lado, jamais se encontrará um melhor exemplo do valor da energia física e moral e da necessidade de uma real resistência física para suportar a pressão do tempo, da fome, a sede e de todos os outros sofrimentos da guerra; em uma palavra da necessidade por aquele estoicismo que surge, não de repente, mas gradualmente através do treinamento militar, o qual, no fim de tudo, é simplesmente o espírito entranhado de honra e do dever." ~ Camille Rousset, Batalha do Rio Katzbach, 1813.

"Chuquet afirma corretamente que Leon Gambetta, com seus soldados improvisados, procurou repetir os legendários milagres de 1792-93, mas esqueceu-se que os revolucionários voluntários haviam trazido, através de sua falta de disciplina e coragem, apenas desgraças para seu país. Durante a revolução, a República Francesa foi salva, não pela devoção e habilidade de suas novas tropas, mas pela falta de unidade na Aliança. Em 1793, os alemães estavam fracos e indecisos e estavam relativamente distantes; em 1870, eles encontravam-se fortes e unidos, e estavam atuando não no Sauer e no Scheldt, mas no coração da França, no Sena e no Loire." ~ Hugo von Freytag-Loringhoven, O poder da personalidade na guerra, capítulo 2.

"O esforço físico deve ser empreendido não tanto para treinar o corpo, mas a mente. Na guerra, o recruta, geralmente, considera que qualquer exigência física fora do comum requerida dele é a consequência de algum erro crasso cometido pelo comandante, deixando-se influenciar por este modo de pensar. Isso não acontecerá se ele tiver sido adequadamente preparado para atendê-las durante a instrução em tempos de paz." ~ Carl von Clausewitz, Da Guerra, Volume I, capítulo 8.

"Com estas qualidades e guiado simplesmente por um correto bom senso, o homem se torna um instrumento de guerra eficaz. Estas qualidades são inerentes aos povos selvagens e semicivilizados, mas nas nações civilizadas, elas devem ser desenvolvidas pela instrução militar." ~ Carl von Clausewitz, Da Guerra, Volume I, capítulo 3.

"A guerra é o domínio do esforço físico e do sofrimento. Para um homem não ser dominado por estes aspectos, ele precisa possuir uma certa força física e mental, inata ou adquirida, que o torna indiferente a eles." ~ Carl von Clausewitz, Da Guerra, Volume I, capítulo 3.

"Na nossa época, não parece haver meios de incutir este espírito(coragem) em um povo, a não ser através da guerra e de uma liderança ousada. Somente isto pode contrapor-se àquele comodismo, àquele desejo por conforto e prazer, que pode arruinar um povo." ~ Carl von Clausewitz
"A audácia na guerra tem suas prerrogativas. Quando as estimativas de espaço, tempo e poder de combate estiverem concluídas, um certo acréscimo deve sempre ser feito em razão da vulnerabilidade do inimigo. Isto pode ser rapidamente rapidamente demonstrado de modo filosófico. Sendo os outros fatores iguais, sempre que a audácia encontra o medo, ela deve prevalecer, pois o medo sempre é prejudicado por uma perda de equilíbrio. Somente quando a audácia se depara com a prudência calculada, tão ousada, e, pelo menos, tão forte e poderosa como ela própria, ela tornar-se-á inferior. Tais casos são raros. Entre os prudentes, haverá sempre muitos que o são por pura timidez." ~ Carl von Clausewitz
"Longos anos de guerra criaram em Ney uma infalível serenidade que o tornava capaz de dizer a um soldado ferido que pedia por ajuda durante a retirada da Rússia em 1812, "Como posso ajudá-lo? Você faz parte dos destroços de guerra". Nessas palavras, ditas tão calmamente, não havia crueldade, havia apenas a expressão de uma antiga verdade - o soldado na guerra está destinado a destruição; uma verdade quase esquecida na nossa era de amor à paz." ~ Hugo von Freytag-Loringhoven

"Homens comuns, que se submetem à persuasão externa, de um modo geral permanecem continuamente indecisos. Para eles todas as situações são diferentes do que as que imaginavam. Neste estado mental, rendem-se posteriormente a persuasão externa e tornam-se ainda mais incertos e instáveis, até mesmo uma pessoa forte e decidida que tenha baseado suas decisões em informações de primeira mão irá, frequentemente, tomar decisões erradas. Ela não deve, porém, permitir que estes erros abalem sua autoconfiança inata e a tentem a mudar suas decisões bem tomadas para apagar uma impressão efêmera." ~ Carl von Clausewitz, Da Guerra, Volume I, capítulo 6.

"Sem dúvida alguma, nossas táticas devem mudar com as inovações dos campos de batalha. Disse Napoleão: "As táticas devem mudar a cada dez anos para se manter até mesmo uma imagem de superioridade." Entretanto, por mais que mudem as táticas, elas não reduzirão a necessidade por generais habilidosos que ajam de forma audaz dispondo apenas de informações superficiais. Sempre precisaremos, por exemplo, de homens como Constantine Von Alvensleben; o que teria acontecido em Thionville caso o general Von Alvensleben tivesse esperado até que estivesse absolutamente seguro da situação e tivesse, por assim dizer, contado o inimigo homem por homem? Os problemas na guerra jamais podem ser resolvidos como aqueles de aritmética e devemos sempre estar prontos para agir de forma apropriada apesar das incertezas. Não devemos também procurar reduzir as táticas a meras fórmulas técnicas e matemáticas. Isto elas jamais poderão se tornar, e é justamente por esse motivo que a nossa profissão é tão fascinante. A guerra sempre exigiu, e irá sempre exigir, o melhor raciocínio e o mais completo desenvolvimento da personalidade do qual uma pessoa seja capaz. Isto, obviamente, é diretamente contrário ao espírito sectário nivelador e negativo que contamina atualmente a vida moderna e que abomina, acima de todas as coisas, um espírito militar forte e independente." ~ Hugo von Freytag-Loringhoven, A guerra é o domínio da incerteza, capítulo 4.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Poemas de Charr


"Oh Rosa Azul de Illium, deixe tuas raízes penetrarem fundo no solo quente de Tuchanka. Deixe que nosso sol crepitante e chuvas caudalosas transformem tua delicadeza em força. Pois, para que nosso amor sobreviva, ele deve ter espinhos que trespassem a mão de qualquer um que deseje desenraizá-lo."

"Rosa azul de Illium, tu floresceste numa torre de vidro e plástico. Mas beleza sob o vidro é fraca e não testada. Onde estão os teus mortos veneráveis, para fertilizar o solo no qual crescerás forte? Nas planícies rochosas de Tuchanka, eu vou construir-te um jardim com os ossos dos meus ancestrais."

"Rosa Azul de Illium, abandone a eternidade e engalfinhe-se na gloriosa porfia que somos nós, aqui e agora! Quedo-me sem palavras, não por fúria sanguinária, mas por amor, e permaneço aqui, humilde e silente, para oferecer-te uma casa. Venha para mim, Rosa Azul de Illium. Deixe nossos três corações, bater como dois." ~ (Krogans tem dois corações)

"Oh Rosa Azul de Illium, se essas humildes palavras chegarem a você, então eu terei me reunido com meus ancestrais.

Meu sonho era estar ao seu lado, uma erva daninha próxima a sua beleza, se entrelaçando juntas no calor do sol de Tuchanka.

Mas se os meus últimos dias devem ser com o Krannt ao invés da sua benevolência, ainda assim, eu me lembrarei do aroma do teu perfume e do suave toque de suas pétalas.

Que meus ossos estilhaçados sejam uma muralha ao redor do seu jardim, para que você e a flor que plantamos juntos possam crescer fortes e seguras." ~ Charr

sábado, 14 de fevereiro de 2015

O Sozinho

Ser um lobo solitário é um comportamento aberrante, não natural e típico das eras de decadência, onde a identidade völkisch é apagada por uma identidade de massa de consumo. O comportamento solitário não é natural do ser humano, aqueles que dizem que gostam de estar sozinhos simplesmente querem dizer com isso que o ambiente ao seu redor é desagradável, o que é compreensivo.

O ser humano viveu em tribos durante 100.000 anos, o mundo moderno existe a 200 anos, e a era da informação há 25 anos, nós temos mais traços do homem das cavernas do que de um homem moderno, nós somos moralmente degenerados é certo, mas nossa anatomia e nossos impulsos são sem dúvidas os mesmos dos homens que viviam nas florestas, portanto saudáveis.

Apenas quando nós distorcemos nossos instintos, e corrompemos nossos impulsos é que nos tornamos homens modernos, homens doentes, homens da cidade grande. Tudo que é natural na cidade grande é corrompido e preenchido de maneira inadequada, em vez de reprodução existe promiscuidade, em vez de combate aberto e honra, existe agressividade passiva, intrigas e falsidades, em vez do estímulo constante da mente através de várias atividades físicas e intelectuais, existe o entretenimento vazio, a distração constante. Porque não se enganem meus caros, o homem das cavernas necessitava usar seu cérebro provavelmente mais do que 90% da população atual hoje o usa.

Não digredindo porém, reafirmo, o ser humano é um animal de bando, de clã, de estirpe, o ápice do comportamento social no reino animal se consubstancia no homo sapiens, o homem não é o todo, ele faz parte do todo, e ele é feliz sendo parte, está em sua natureza, o individualismo não faz parte da natureza humana, se o faz é muito pouco e se limita aos gênios, gente como Goethe, Gauss, Newton, Tesla, Heisenberg, Von Braun. E mesmo nesses o individualismo é limitado.

A não socialização, ou melhor, a falta de laços de irmandade é fraqueza, o poder está no clã, na estirpe, na identidade, nos seus irmãos, na sua família, na sua tribo.

A solidão todavia, nessa era de degeneração e corrupção, pode até ser vista com um pouco de afeição, afinal é compreensível querer abster-se da Babilônia.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Portatori del fuoco



Un tempo per muovere l’aratro
Um tempo para mover o arado
Altro non vi era che anteporvi un bue
Não era mais que colocar um boi a sua frente
E ottenevi del solco il risultato
E obter do sulco o resultado
Sommando le passività dei due.
Somando a passividade dos dois
Creatura e utensile assemblati dal giogo
Criatura e utensílio reunidos pelo jugo
Nella stretta servile del medesimo nodo.
Na constrição servil do mesmo nó.

Nel bove spento è l’occhio minerale
No lânguido boi o olho é mineral
Prospettico all’usuale seminato
Acostumado ao usual hábito
Al saldo d’un domani ancora uguale
Ao custo de um amanhã de novo igual
Tutt’uno con l’attrezzo e col tracciato.
Em união com o equipamento e com o traçado

Per questo stenti a scorger le ragioni
Destarte sofre para perceber a razão
Di tutto ciò che un toro fa evidenza,
De tudo aquilo que um touro faz evidência
Ossia che in pochi grammi di coglioni
Ou seja que poucos gramas de culhões
Consista l’abissale differenza.
Consista na abissal diferença.
Ma è innegabile che tale scarto si vede:
Mas é inegável que tal adição se nota:
Giogo adatto non c’è - non cammina, ma incede.
Nenhum jugo o domina, não caminha, marcha galante.

Il toro ha un corno disegnato ad arco
O touro tem um chifre desenhado em arco
Che lancia il suo nemico tra le stelle,
Que lança seus inimigos as estrelas,
E’ fatto apposta per aprirsi un varco
Feito à propósito de abri-se caminho
Sfilandone dal buco le budelle.
Arrancando da ferida as tripas

Cosa genererà l’indomabile fuoco
O que produzirá o fogo indomável
Che lo fiancheggerà nell’arena tra voi?
Que o acompanhará na arena entre vós?
Su coraggio, chi sta dalla parte del toro?
Avante, quem está ao lado do touro?
Che si aspetta a unirci a lui?
Quem espera unir-se a ele?

Qualcuno con quel toro ha da spartire
Qualquer um que com aquele touro divide
L’idea che più incivile non si può
A idéia que os vis não podem compreender
Che chi ti vuol la pelle requisire
De que quem quiser levar a tua pele
Dovrebbe ben pagarla anzichenò.
Deve em retorno pagar bem por ela
Specie chi come voi pare proprio sia avvezzo
Especialmente aqueles que parecem ser acostumados
A scucirne di molte, sorvolando sul prezzo.
A arrancar a pele de muitos, indiferentes ao preço.

Quattro torpedini sotto superficie
Quatro torpedos sob a superfície
Le avrete in culo al tempo d’un rosario,
Te acertam no traseiro ao tempo de um rosário,
Quattro torrenti di ira redentrice
Quatro torrentes de ira redentora
Già vi hanno scelto come loro estuario.
Escolheram-te como o seu estuário

Due giungono portando in dotazione
Duas chegam trazendo consigo
Artiglieria leggera, ma per dire.
Artilheria ligeira, mas para dizer.
E un’altra avanza a modo di scorpione:
E uma outra avança a modo de escorpião:
Punta e veleno tanto per gradire.
Ponta e veneno tanto para agradar
Poi c’è un quarto che viaggia imbottito a tritolo
Então há um quarto que viaja entupido de dinamite
Verso l’ultima spiaggia da cui spiccare il volo.
Rumo a última praia da qual alça voo

Mezz’ora d’inferno scoperchiato
Meia hora de inferno visceral
Vi ha già ridotto alquanto la baldanza
De vocês reduziu bastante a ousadia
Benché qualcuno lo si sia accoppato
Embora alguns tenham sido aniquilados
Si replica che è troppo ciò che avanza.
Se responde que são muitos os que restaram

Detti saranno poi Portatori Del Fuoco,
Chamar-se-ão pois, Portadores do Fogo,
Una mano che sa appiccarlo per noi.
Uma mão que sabe inflamá-lo para nós
Fuoco amico di chi, portatore del giogo,
Fogo amigo de quem, portador do jugo,
Voglia disertare i buoi!
Deseja abandonar os bois

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Macário



O DESCONHECIDO

E o que exigirias para a mulher de teus amores?



MACÁRIO

Pouca coisa. Beleza, virgindade, inocência, amor...



O DESCONHECIDO (irônico)

Mais nada?



MACÁRIO

Notai que por beleza indico um corpo bem feito, arredondado, cetinoso, uma pele macia e rosada, um cabelo de seda frouxa e uns pés mimosos...



O DESCONHECIDO

Quanto à virgindade?



MACÁRIO

Eu a quereria virgem na alma como no corpo. Quereria que ela nunca tivesse sentido a menor emoção por ninguém. Nem por um primo, nem por um irmão... Que Deus a tivesse criado adormecida na alma até ver-me, como aquelas princesas encantadas dos contos que uma fada adormecera por cem anos. Quereria que um anjo a cobrisse sempre com seu véu, e a banhasse todas as noites do seu óleo divino para guardá-la santa... Quereria que ela viesse criança transformar-se em mulher nos meus beijos.



O DESCONHECIDO

Muito bem, mancebo! E esperas essa mulher?



MACÁRIO

Quem sabe!



O DESCONHECIDO

E é no lodo da prostituição que hás de encontrá-la?



MACÁRIO

Talvez! É no lodo do oceano que se encontram as pérolas...



O DESCONHECIDO

Em mau lugar procuras a virgindade! É mais fácil achar uma pérola na casa de um joalheiro que no meio das areias do fundo do mar.



MACÁRIO

Quem sabe!...



O DESCONHECIDO

Duvidas pois?



MACÁRIO

Duvido sempre. Descreio às vezes. Parece-me que este mundo é um logro. O amor, a glória, a virgindade, tudo é uma ilusão.



O DESCONHECIDO

Tens razão: a virgindade é uma ilusão! Qual é mais virgem, aquela que é deflorada dormindo, ou a freira que ardente de lágrimas e desejos se revolve no seu catre, rompendo com as mãos sua roupa de morte, lendo algum romance impuro?



MACÁRIO

Tens razão: a virgindade da alma pode existir numa prostituta, e não existir numa virgem de corpo. Há flores sem perfume, e perfume sem flores. Mas eu não sou como os outros. Acho que uma taça vazia pouco vale, mas não beberia o melhor vinho numa xícara de barro.



O DESCONHECIDO

E contudo bebes o amor nos lábios de argila da mulher corrupta!



MACÁRIO

O amor? Que te disse que era o amor? É uma fome impura que se sacia. O corpo faminto é como o conde Ugolino na sua torre, morderia até num cadáver.



O DESCONHECIDO

Tua comparação é exata. A meretriz é um cadáver.



MACÁRIO

Vale-nos ao menos que sobre seu peito não se morre de frio!



O DESCONHECIDO

Admira-me uma coisa. Tens vinte anos: deverias ser puro como um anjo e és devasso como um cônego!



MACÁRIO

Não é que eu não voltasse meus sonhos para o céu. A cisterna também abre seus lábios para Deus, e pede-lhe uma água pura, e o mais das vezes só tem lodo. Palavra de honra, que às vezes quero fazer-me frade.



O DESCONHECIDO

Frade! Para quê?



MACÁRIO

É uma loucura. Enche esse copo. (Bebe) Pela Virgem Maria! Tenho sono. Vou dormir.



O DESCONHECIDO

E eu também. Boa-noite.

Álvares de Azevedo, Macário.

domingo, 7 de setembro de 2014

Wagner em Bayreuth

~ "Precisamos aprender a morrer, no sentido mais completo da palavra, pois o medo do fim é a fonte de todo egoísmo e surge sempre que o amor se extingue... Wotan se lança à altura trágica, ele quer seu declínio. Isso é tudo o que devemos aprender da história da humanidade: querer o necessário e realizá-lo." ~ pg 32

~ Quem de nós não sujou suas mãos e sua alma a serviço dos repugnantes ídolos da cultura moderna?! Quem não precisa da água purificadora, quem não escuta a voz que adverte: "Façam silêncio e sejam puros!"? Façam silêncio e sejam puros! Somente escutando essa voz poderemos adquirir essa amplitude do olhar a partir da qual contemplaremos o acontecimento de Bayreuth: e é somente nesse olhar que reside o grande futuro desse acontecimento. ~ pg42

~ Em vez de dar ouvidos a esses vãos consolos, ele suporta fixar seu olhar profundamente insatisfeito em nossa essência moderna: pouco importa que se encha de bílis e raiva se seu coração não é suficiente caloroso para ter compaixão! Malícia e escárnio seriam melhores do que se entregar, à maneira de nossos "amadores de arte", a um bem-estar enganoso e a um alcoolismo secreto! ~ pg76

~ Outrora se olhava de cima, com franca superioridade, os que lidavam com o comércio de dinheiro, mesmo quando se precisava deles; admitia-se que toda sociedade devia ter suas entranhas. Atualmente eles são o poder dominante na alma da humanidade moderna e seu componente mais ávido. ~ pg78

~ A partir de sua experiência, ele compreendeu a situação vergonhosa na qual se encontram a arte e o artista: em uma sociedade sem alma ou com alma endurecida, que se considera boa, mas que é propriamente má, arte e artista contam como séquito de escravos para satisfação de necessidades aparentes. ~ pg97

~ Mas como viviam o mito e a música em nossa sociedade moderna na medida em que não foram por ela destruídos? Uma sorte semelhante lhes foi reservada como expressão de seu misterioso vínculo: o mito foi profundamente rebaixado e desfigurado, degenerado em "conto", relegado ao domínio lúdico que dá alegria às crianças e mulheres de um povo em decadência, completamente despojado de sua maravilhosa natureza viril, grave e sagrada; a música foi conservada entre os pobres e simples, entre os solitários; ao músico alemão não foi possível se integrar com êxito ao empreendimento de luxo das artes, convertendo-se ele próprio em um conto monstruoso, hermético, repleto dos sons e signos mais comoventes, um questionador desajeitado, inteiramente enfeitiçado e necessitando de de libertação. ~ pg99

E agora, gerações do presente , é preciso que perguntem a si próprios: terá sido para vocês que tudo isso foi inventado? Vocês têm a coragem, com suas mãos sobre as estrelas dessa inteira abóbada celeste de beleza e bondade, de mostrar e de dizer: esta é nossa vida que Wagner transportou até as estrelas?

Quem são, dentre vocês, os homens capazes de interpretar a imagem divina de Wotan segundo suas próprias vidas e que se tornam, como ele, maiores na medida de seu declínio? Quem de vocês, que sabe e experimentou que o poder é mau, quer renunciar a ele? Onde estão os que, como Brünnhilde, entregarão por amor seu conhecimento e, por fim, retirarão de sua vida o conhecimento supremo: "A mais profunda dor de um amor em luto abriu-me os olhos"? E os heróis livres, sem medo, que crescem e florescem em inocente autonomia, os Siegfried, onde estão entre vocês?

Quem assim pergunta, e pergunta em vão, deverá voltar os olhos em busca do futuro: e caso seu olhar venha a descobrir, em algum longínquo lugar, aquele "povo" ao qual será dado ler nos signos da arte wagneriana sua própria história, compreenderá por último, também, o que Wagner será para esse povo: ele não pode ser para nós todos, talvez como tenha sido nossa impressão, o vidente de um futuro, mas sim o intérprete e transfigurador de um passado. ~ pg. 140-141

Wagner em Bayreuth, F. Nietzsche, Zahar editora.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

O retorno do cavaleiro



Mi piace pensarti così
Me agrada pensar-te assim
mentre sorridi sicura di te
enquanto sorri segura de si,
Confondi quel tenero sguardo
Confunde o doce olhar,
con l'uomo che torna da terre lontane
com o homem que volta de terras longínquas
Sai come curare le brutte ferite
Sabe como curar as hediondas feridas
forgiate di lunghe battaglie già vinte o perdute.
forjadas em longas batalhas já ganhas ou perdidas.

Mi piace chiamarti per nome
Me agrada chamar-te pelo nome
o dire mia moglie alla gente che viene
ou dizer "minha mulher" em frente as pessoas
Ti senti una parte del mondo
Te sente uma parte do mundo
accanto a quell'uomo che porti nel sogno
Ao lado daquele homem que possui no sonho
Non chiedi più niente, sei calma e pacata
Não exige nada demais, é calma e pacata
Sei proprio la donna che ho sempre desiderato.
É a mulher que eu sempre desejei.

Ma ora devo partire,
Mas devo partir,
questa è la terra dei padri che adesso io devo salvare
esta é a terra dos ancestrais que agora eu devo salvar,
Il nemico mi spetta sopra il ponte,
O inimigo me aguarda sobre a ponte,
la spada temprata, lo scudo e il cavallo Un vero purosangue,
A espada brandida, o escudo e o cavalo, um verdadeiro puro sangue,
di questa battaglia faranno bandiera
Desta batalha erigirão insígnias
Sarà il cavaliere, tuo uomo, a tornare stasera.
Será o cavaleiro, teu homem, a tornar esta noite.

Le case diventano nebbia,
As casas cobrem-se de névoa,
la strada un sentiero di corpi e di sangue
a estrada, um caminho de corpos e sangue
Trascini le ossa ferite,
Arrastando ossos feridos,
la terra dei padri ancora non piange
A terra dos ancestrais agora não chora
Il gelo nell'aria sconfigge il dolore,
O ar gélido esvanece a dor,
Ma il forte guerriero che torna è un uomo d'onore!
Mas o forte guerreiro que retorna é um homem de honra.

È notte da un pezzo, ma lei non ci pensa,
A noite avança, mas a ela não importa,
lo aspetta vicino a quel fuoco,
Espera-o próximo aquele fogo,
Le vecchie leggende ti parlano al cuore,
As velhas lendas falam ao teu coração, 
anche questo fa parte del gioco
Também isso faz parte do jogo

Per tutta la vita fedele potrai
Por toda a vida, fiel poderá,
restare accanto a quell'uomo 
Ficar ao lado daquele homem
che un giorno vedrai
que um dia verá.

C'è ancora la neve ai bordi del prato,
Cai agora neve na orla da campina,
sui rami ai confini del bosco
suas ramificações aos confins do bosque
Anche il falco è tornato
Também o falcão retornou,
e con lui la fine del suo viaggio,
e com ele a fim de sua viagem,

Quell'uomo fedele di spada e d'amore 
Aquele homem fiel da espada e do amor
più forte del coraggio
Mais forte da coragem
Lo accogli con fare da vera regina
Acolhe-o com maneiras de uma verdadeira rainha
sui biondi capelli d'incanto si scioglie la brina.
Seus louros cabelos de encanto derretem a neve.