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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Macário



O DESCONHECIDO

E o que exigirias para a mulher de teus amores?



MACÁRIO

Pouca coisa. Beleza, virgindade, inocência, amor...



O DESCONHECIDO (irônico)

Mais nada?



MACÁRIO

Notai que por beleza indico um corpo bem feito, arredondado, cetinoso, uma pele macia e rosada, um cabelo de seda frouxa e uns pés mimosos...



O DESCONHECIDO

Quanto à virgindade?



MACÁRIO

Eu a quereria virgem na alma como no corpo. Quereria que ela nunca tivesse sentido a menor emoção por ninguém. Nem por um primo, nem por um irmão... Que Deus a tivesse criado adormecida na alma até ver-me, como aquelas princesas encantadas dos contos que uma fada adormecera por cem anos. Quereria que um anjo a cobrisse sempre com seu véu, e a banhasse todas as noites do seu óleo divino para guardá-la santa... Quereria que ela viesse criança transformar-se em mulher nos meus beijos.



O DESCONHECIDO

Muito bem, mancebo! E esperas essa mulher?



MACÁRIO

Quem sabe!



O DESCONHECIDO

E é no lodo da prostituição que hás de encontrá-la?



MACÁRIO

Talvez! É no lodo do oceano que se encontram as pérolas...



O DESCONHECIDO

Em mau lugar procuras a virgindade! É mais fácil achar uma pérola na casa de um joalheiro que no meio das areias do fundo do mar.



MACÁRIO

Quem sabe!...



O DESCONHECIDO

Duvidas pois?



MACÁRIO

Duvido sempre. Descreio às vezes. Parece-me que este mundo é um logro. O amor, a glória, a virgindade, tudo é uma ilusão.



O DESCONHECIDO

Tens razão: a virgindade é uma ilusão! Qual é mais virgem, aquela que é deflorada dormindo, ou a freira que ardente de lágrimas e desejos se revolve no seu catre, rompendo com as mãos sua roupa de morte, lendo algum romance impuro?



MACÁRIO

Tens razão: a virgindade da alma pode existir numa prostituta, e não existir numa virgem de corpo. Há flores sem perfume, e perfume sem flores. Mas eu não sou como os outros. Acho que uma taça vazia pouco vale, mas não beberia o melhor vinho numa xícara de barro.



O DESCONHECIDO

E contudo bebes o amor nos lábios de argila da mulher corrupta!



MACÁRIO

O amor? Que te disse que era o amor? É uma fome impura que se sacia. O corpo faminto é como o conde Ugolino na sua torre, morderia até num cadáver.



O DESCONHECIDO

Tua comparação é exata. A meretriz é um cadáver.



MACÁRIO

Vale-nos ao menos que sobre seu peito não se morre de frio!



O DESCONHECIDO

Admira-me uma coisa. Tens vinte anos: deverias ser puro como um anjo e és devasso como um cônego!



MACÁRIO

Não é que eu não voltasse meus sonhos para o céu. A cisterna também abre seus lábios para Deus, e pede-lhe uma água pura, e o mais das vezes só tem lodo. Palavra de honra, que às vezes quero fazer-me frade.



O DESCONHECIDO

Frade! Para quê?



MACÁRIO

É uma loucura. Enche esse copo. (Bebe) Pela Virgem Maria! Tenho sono. Vou dormir.



O DESCONHECIDO

E eu também. Boa-noite.

Álvares de Azevedo, Macário.

quarta-feira, 28 de março de 2012

A mulher boa

 
— Olhai, discreto Basílio — acrescentou D. Quixote — foi opinião de não sei que sábio que só havia em todo o mundo uma mulher boa, e dava por conselho que todos pensassem e acreditassem que a sua era essa, e assim viveriam contentes. Eu não sou casado, e até agora não pensei em casar, e, contudo, atrever-me-ia a aconselhar, a quem o desejasse, o modo como havia de procurar esposa. Primeiro aconselhar-lhe-ia que olhasse mais à fama que à fazenda, porque a mulher boa não alcança boa fama só com o ser boa, mas também com parecê-lo, que muito mais prejudicam a honra das mulheres as desenvolturas e liberdades públicas, do que as maldades secretas. Se levas mulher já de si boa para tua casa, não será difícil conservá-la assim e até melhorá-la; mas se a levas má, meter-te-ás em trabalhos, querendo emendá-la, que não é muito fácil passar dum para outro extremo. Não digo que seja impossível, mas tenho-o por dificultoso.
 
CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de; O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Tomo II, Capítulo XXII.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Da tradição olvidada

Toda a gente anda cansada de gritar, pelo livro e pelas gazetas, que somos um povo sem amor a tradição. A grita é justa. No capítulo dos costumes, notadamente, tem sido integral a nossa desnacionalização. Os usos primevos dos nossos maiores, desses que nasceram com a nação, se esboroaram definitivamente com o volver dos anos.

E é pena. Muito velho costume, velho e pitoresco, abandonamos sem justificativa que abone. Querem ver? Aponto aqui, como exemplo, aquele respeitável hábito das mais autênticas mulheres brasileiras, as tapuias, que, segundo o grave testemunho do padre João Daniel, "ainda que os maridos lhes dêm má vida ou as môam de pancadaria, nunca se queixam as mulheres, nem fogem. Antes, algumas vezes que se lhes perguntam porque se deixam tratar assim, respondem que simplesmente seus maridos lhes dão e as maltratam por lhe quererem muito bem..."  Não quero, está claro, pretender que nós, por um conservantismo feroz, cheguemos a ponto de manter um uso como esse, que embora eu, pessoalmente, o repute de grande alcance, muito útil e louvável, seria talvez, no conceito avançado de algum espírito moderno, tido como evidentemente retardatário.

Eu não digo, vá lá, que um marido amoroso, a fim de bem evidenciar o seu afeto, viva a moer a mulher de pancadaria. Não. Há outros usos muito mais proveitosos, e inconfundivelmente raciais, que deveríamos caprichar em conservar. Um, sobretudo, um hábito saboroso de nossas avós, todo feito de poesia e sacrifício, eu não me conformo de terem as brasileiras lançado ao olvido. Devíamos pugnar por vivificá-lo. Sim, devíamos, neste momento de nacionalismos vermelhos, pugnar por desentulhar do esquecimento, praticando-a à luz do sol, aquela doce usança pátria, de que nos dá conta, deliciosamente, na sua "Viagem á Terra do Brasil", o fidedigno Gabriel Soares, quando refere que as tupinambás, nossas ancestrais, criaturas brandas de coração, não suportavam jamais ver os maridos tristes e enfadados. Doía-lhes imenso a melancolia dos esposos. Doía-lhes tanto, que, "para os contentarem, buscam-lhes indias moças com que elles se desenfadem, as quaes lhes levam às redes onde dormem, pedem muito que se queiram deitar com os maridos, e as peitam para isso. É cousa que não faz nenhuma nação de gentes, senão estes barbaros".

Porque haveremos nós de deixar perecer uso assim tão característico? É ele, como se vê, um dos mais típicos de que se pode gabar um povo. É único. "É cousa que não faz nenhuma nação de gentes". Nós, que importamos, com macaquices assinaladas, tudo o que cheira além-mar, nós temos em casa, prata nossa e legítima, essa sedutora usança racial, bem brasileira, que os outros não têm. É dever nosso, portanto, dever cívico, não deixá-la morrer.

Às vezes, como consolo, esse velho uso - notai o que é a hereditariedade! - ainda aflora, inconscientemente, em algumas almas bem formadas. É raro, mas acontece.

Paulo Setúbal, O Ouro de Cuiabá, A Veluda, Editora Nacional, Pgs. 165,166,167.