
O seu pecado tinha consistido em negligenciar o ódio. Se tivesse permanecido um pouco mais filósofo, a revolução teria perdido o seu espírito, a sua aresta trágica, o seu aguilhão mais acerado que a caráterizaram; seria considerada como um acontecimento muito mais estúpido e seduziria menos os espíritos. Mas o ódio e a vingança de Chamfort educaram uma geração inteira: as pessoas mais sublimes passaram por sua escola. Considera-se que Mirabeau olhava Chamfort de baixo, como um seu superior, mais completo, de quem esperava ou sofria os impulsos, os conselhos, as sentenças... Mirabeau que, na ordem humana, ultrapassa tão longe os primeiros de todos os grandes homens de ontem e de hoje! Não será singular que, apesar de tal amigo, apesar de semelhante advogado - dispomos das cartas que ele recebia de Mirabeau - o mais espiritual dos moralistas tenha permanecido alheio aos franceses, tal como Sthendal, que tinha talvez os ouvidos e os olhos mais ricos de pensamentos entre os franceses deste século? Será porque havia em Sthendal demasiados elementos ingleses e alemães para que o parisiense o suportasse?
Chamfort, esse que é um ser rico em profundezas e em interioridades, o homem sombrio, sofredor, ardente, um pensador que via no riso um remédio necessário contra a vida e que se julgava quase perdido no dia em que não tinha rido, pareceria mais italiano do que francês, parente de Dante e de Leopardi! Conhece-se as suas últimas palavras: "Ah, meu amigo", disse ele a Sieyès, "vou-me finalmente embora deste mundo, onde é necessário que o coração se parta ou se endureça...". Estas não são certamente as palavras de um francês moribundo.
Nietzsche, F.W., Gaia Ciência, Livro Segundo, Aforisma 95.