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domingo, 19 de abril de 2020

Exercícios do eu lírico

O calor de teus olhos penetrava o imo de minha alma, e tuas doces palavras agora um som melífluo longínquo. E homiziado em trevas encontro em deleitosas lembranças, uma cálida e moribunda esperança. Destinado a morrer só, num monturo de degeneração, longe de tua presença impoluta que me justificava o existir e purificava um mundo, para mim, abjeto.

Nada mais anseio, nada mais me anima, coberto pelo negror de tua ausência, enraízado em solitude profunda, que sentido pode haver nessa vida terrena separado de ti?

Somente a álgida lua vela comigo nessas horas de estertor, e as solitárias estrelas seguem-me nessas sendas desoladas, distantes do calor solar de teu espírito, ó minha amada!

O tempo em seu letífero fluxo tudo há de esmigalhar, que sobrará então senão espectros indistintos da efêmera passagem de nossa vida? 

Encerrada na luta eterna, a quintessência de todos os valores e nobrezas, dissolve-se e resume-se novamente, o eterno retorno, que conforta-me deveras, na ciência do que senti outrora, sentirei novamente, numa outra vida talvez...?

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Dulcinéia

Dulcinea del Toboso, by Charles Robert Leslie

CARTA DE D. QUIXOTE A DULCINÉIA DEL TOBOSO
“Soberana e alta senhora! O ferido do gume da ausência, e o chagado nas teias do coração, dulcissima Dulcinéia del Toboso, te envia saudar, que a ele lhe falta. Se a tua formosura me despreza, se o teu valor me não vale, e se os teus desdéns se apuram com a minha firmeza, não obstante ser eu muito sofrido, mal poderei com estes pesares, que, além de muito graves, já vão durando em demasia. O meu bom escudeiro Sancho te dará inteira relação, ó minha bela ingrata, amada inimiga minha, do modo como eu fico por teu respeito. Se te parecer acudir-me, teu sou; e, se não, faze o que mais te aprouver, pois com acabar a minha vida terei satisfeito à tua crueldade e ao meu desejo.

Teu até à morte

O Cavaleiro da Triste Figura.”

Cervantes e Saavedra, Miguel de, O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha, Volume I, Capitulo XXV.


Aldonsa del Toboso Pastel by Tayde Salazar

"— Não poderei afirmar se a minha doce inimiga gosta, ou não, de que o mundo saiba que eu a sirvo. Só posso dizer, em resposta ao que tão res­pei­to­sa­men­te se me pede, que o seu nome é Dulcinéia, sua pátria Toboso, um lugar da Mancha; a sua qualidade há-de ser, pelo menos, Princesa, pois é Rainha e senhora minha; sua formosura sobre-humana, pois nela se realizam todos os impossíveis e quiméricos atributos de formosura, que os poetas dão às suas damas; seus cabelos são ouro; a sua testa campos elísios; suas sobrancelhas arcos celestes; seus olhos sóis; suas faces rosas; seus lábios corais; pérolas os seus dentes; alabastro o seu colo; mármore o seu peito; marfim as suas mãos; sua brancura neve; e as partes que à vista humana traz encobertas a honestidade são tais (segundo eu conjecturo) que só a discreta consideração pode encarecê-las, sem poder compará-las."


Cervantes e Saavedra, Miguel de, O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha, Volume I, Capitulo XIII.



No espanhol da época o nome "Dulcinéia" era algo como uma variante garbosa da palavra "doçura". Destarte, Dulcinéia é uma pessoa inteiramente ficcional por quem Dom Quixote luta incansavelmente. Até nos dias atuais, referenciar alguém como sua "Dulcinéia", implica ter devoção e amor incondicionais por ela, e particularmente amor não-correspondido.

"(...) Na versão para teatro(mas não no filme de 1972), o pároco local canta uma canção chamada "A cada um, sua Dulcinéia", na qual ele reflete que, embora Dulcinéia não exista, a idéia dela é o que mantém Dom Quixote vivo e disposto em sua busca."

http://en.wikipedia.org/wiki/Dulcinea

O amor é uma religião militar, a religião da terra, uma fé una compartilhada pelos espíritos fortes e nobres. Fora com os que não possuem o fervor e a fortitude necessárias para cumprir os desígnios do amor, o amor não é para os covardes, vãos ou levianos, o amor puro é gema rara e obscura que habita nas paragens recônditas de uma sociedade de morte como a atual, em que, o que se tem sob a palavra "amor" não passa de desejo animal e medo de solidão.

Que nós, os aristocratas do espírito nos reunamos sob a égide do amor puro, que o amor seja nossa única lei, verdadeira, indestrutível, e banhados na calidez dessa fé possamos nos manter limpos, malgrado vivamos no turbilhão de paixões e efemeridades do mundo moderno. Mantemo-nos na solitude das alturas respirando o ar rarefeito à 6.000 pés de altitude, pela eternidade vindoura!

Amor vincit omnia.

domingo, 4 de abril de 2010

Da alma do artista moderno



Muitas são as simples minudências

Do escritor de modernas tendências

Esses seres que me aviltam,

Cantarei esses biltres, malgrado mo permitam


O sorriso amarelo, o simples jeitinho

Poetam sentimentos e coisas sem sentido

Dos “inhos” nojentos sempre mestres no escarninho

De emoções puras signo vil hão mantido


Essa raça inferior, vis celerados

Dominam tudo e dominam nada

Tudo, em qualquer lugar coalham e são encontrados

Nada, arte por eles é execrada


São todos tão humanos e sensíveis

Na falta de talento patente

No escrever são bastante sofríveis

Da literatura, não alcançam céu arquipotente


Mistura são de movimentos pífios

De belo não lhes restam nem resquícios

Realistas pútridos é o que são

Destarte não possuem nem o vão


Voam baixo como mosquitos

Da potência nunca alcançam a plenitude

Poesia de baixa magnitude

São da literatura os detritos


São publicados com certeza

Nestes tempos de degustada imundície

De intelectuais impõe-se grandeza

Não passam de mais fina ralé da tolice


Anárquicas revoluções de auto-expressão

Querem escapar eles a superpopulação

Não sendo mais um na multidão

Custando isso da arte a violação


São muito fracos por certo

Incultos e inférteis os quero por perto

Que contemplando a arte decadente

O poder da antiguidade sinto em mim vivente


05/07/2006