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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A derrota

A 30 de abril fiquei sabendo pelo rádio a notícia da morte de Adolf Hitler; tinha morrido em Berlim, a capital do Reich que estava cercada pelos russos. Reuni os oficiais do meu estado-maior e lhes dei conhecimento da notícia. Receberam-na em silêncio, como se esperassem algo mais de mim. O que devia dizer-lhes? Meu breve discurso terminou com estas palavras:

- O Führer morreu. Viva a Alemanha!

No princípio, a morte de Adolf Hitler parecia um fato incrível. Mas tão logo a reflexão serenou meus pensamentos, cheguei à conclusão de que o Führer da Grande Alemanha devia morrer na sua Capital. Não podia ser testemunha de sua inevitável derrota. Os acontecimentos daquela época são muito recentes para que a personalidade de Hitler possa ser julgada. Essa tarefa é reservada aos historiadores dos próximos decênios. Para muitos alemães, honestos e de boa-fé, com Adolf Hitler perderam-se todas as esperanças de um futuro feliz.


Otto Skorzeny, Memórias, Capítulo 29, Pg. 253, Tomo II, Editora Bibliex.

domingo, 25 de agosto de 2013

Bolcheviques

...Subitamente vimos um homem espreitando-nos através de uma janela; logo depois saiu à rua demonstrando ar de receio; não ousava crer no que estava vendo: soldados alemães! Muito excitado, contou-nos que os russos estavam na cidade há dois dias. Tinham instalado seu quartel-general junto à estação, em cujas imediações estavam estacionados vários tanques. Os russos utilizavam a ferrovia e frequentemente chegavam trens carregados de material e de pessoal.

Decidimos comprovar pessoalmente aqueles informes. Três homens aproximar-se-iam prudentemente da estação, fazendo uma volta pela cidade; outro grupo avançaria pela rua que conduzia diretamente à estação; o restante do pessoal ficaria junto à porta com as duas viaturas para cobri-los.

A espera deste reconhecimento pareceu-me uma eternidade. Lancei um olhar à minha volta e descobri horrorizado, no meio da rua, o cadáver quase desnudo e terrivelmente mutilado de uma mulher. Alguns habitantes da cidade ousaram sair de suas casas e a se aproximar de nós; a maioria dessas pessoas era constituída de mulheres e crianças, embora houvesse entre elas alguns homens de idade avançada. Pediram que os levássemos conosco. Não podíamos infelizmente atender aos seus pedidos, porque dispúnhamos de apenas duas viaturas. Sugeri, entretanto, que percorressem a pé  os poucos quilômetros até Königsberg; manteríamos a estrada livre durante meia-hora. Mas aqueles homens estavam tão desconcertados, que não chegaram a entender minha sugestão. Era evidente terem vivido dias terríveis; a maioria deles acabou por voltar às suas casas.

Finalmente regressaram os grupos de reconhecimento. Contatou-se que junto a estação havia aproximadamente trinta tanques. As tropas russas estavam acampadas, provavelmente, ao sul e a leste da cidade. tinham visto ainda vários cadáveres de paisanos nas ruas e calçadas; porém, não encontraram um só transeunte.

...

Duas mulheres muito jovens, carregando em seus braços os filhos lactentes, suplicavam-nos com lágrimas nos olhos para que as tirássemos dali. Deixamos que sentassem no assoalho de nossa viatura blindada e nos pusemos em marcha. Enquanto avançávamos em direção a Königsberg, sentíamos a consciência pesada. Mas o que podíamos fazer para ajudar aos habitantes da cidade ocupada? Quando passamos junto ao cadáver de nosso camarada morto naquela manhã, recolhemos seu corpo, colocando-o em nosso jipe: teria ao menos um enterro digno de um soldado. Quando ouvimos à nossa retaguarda o rugitar dos motores dos tanques soviéticos, já estávamos a salvo no interior dos bosque.

Otto Skorzeny, Memórias, Capítulo 28, Pg. 225, Tomo II, Editora Bibliex.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A vaca

No transcorrer do dia os artilheiros americanos tornaram-se cada vez mais impertinentes. Primeiro destruíram a canhonaços um local muito concorrido, cuja porta possuía um buraco em forma de coração. Depois foi a vez do estábulo, onde havia uma velha vaca que foi ferida numa pata traseira. Isso, entretanto, foi uma circunstância feliz, pois até então não tivéramos coragem de matar o animal e naquele momento apareceu a oportunidade para faze-lo sem que ficássemos com a consciência pesada. Colocamos na porta do estábulo o correspondente vale de requisição para que o proprietário da casa e dono da vaca, que tinha fugido, recebesse a indenização correspondente. É curiosa a sensação que se tem quando dispomos de um olho só. A direção e a distância não podem ser precisadas com a mesma exatidão de quando se dispõe da visão normal. Além disso, um verdadeiro entorpecimento parece apoderar-se de nosso organismo. Por este motivo não saía muito de "casa". A fim de ganhar tempo, preparamos os dados de tiro para o grupo de artilharia que nos prometeram. Nossos grupos de reconhecimento tinham localizado as posições de várias baterias americanas e por isso ficamos contentes, pois logo poderíamos replicar convenientemente sua enfadonha insistência.

Otto Skorzeny, Memórias, Capítulo 26, Pg. 196, Tomo II, Editora Bibliex.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Propaganda

Naquele primeiro contato com soldados americanos procurei averiguar se todos os combatentes de ultramar sabiam o que estava sendo forjado na Europa. Sabiam que a verdadeira solução da guerra, decisiva para o futuro, encontrava-se no leste? Sabiam quais as consequências que a derrota da Alemanha traria para a Europa? Comprovei, infelizmente, que tudo isto não significava nada para o jovem oficial. A propaganda americana apresentava os fatos de um modo muito simplista: "os alemães são os eternos bárbaros e, além disso, estão dominados por um demônio em forma de gente que deseja dominar o mundo inteiro, e seu povo o ajuda para isso. Por este motivo é um ato cristão, uma exigência da civilização, aniquilar a Alemanha e evitar para o resto da vida a sua recuperação". Esta era, em síntese, a opinião que o tenente me deu a conhecer com toda a franqueza.

Otto Skorzeny, Memórias, Capítulo 25, Pg. 174, Tomo II, Editora Bibliex.