Sopeia um pouco essas rédeas,
e escuta, mau cavaleiro;
não fatigues as ilhargas
desse teu nobre sendeiro.
Refalsado, tu não foges
de alguma fera serpente,
foges de uma cordeirinha
tenra, cândida, inocente.
Tu escarneceste, ó monstro,
a donzela menos feia,
que viu Diana em seus montes,
e em seus bosques Citereia.
Ingrato Enéias e feroz Teseu,
Barrabás te acompanhe, meu sandeu!
Tu levas, que roubo ímpio!
nas tuas garras grifanhas,
de uma terna namorada
as humílimas entranhas.
Levas três lenços, e as ligas
de umas pernas torneadas,
que são como o puro mármore,
lisas, duras, jaspeadas.
Levas também mil suspiros,
cujo ardor talvez pudesse
abrasar outras mil Tróias,
se outras mil Tróias houvesse.
Ingrato Enéias e feroz Teseu,
Barrabás te acompanhe, meu sandeu!
Que do teu Sancho as entranhas
sejam, para teu tormento,
tão duras, que Dulcinéia
não saia do encantamento.
Que a triste leve o castigo
da tua culpa tamanha,
que justos por pecadores
pagam sempre cá na Espanha.
Que as mais finas aventuras
para ti sejam tristezas,
sonhos os teus passatempos,
olvidos tuas firmezas!
Ingrato Enéias e feroz Teseu,
Barrabás te acompanhe, meu sandeu!
Que sejas tido por falso
de Sevilha a Finisterra,
desde Loja até Granada,
e de Londres a Inglaterra.
Se tu jogares a bisca,
os centos, ou outro jogo,
que os reis, os ases e os setes
fujam de ti logo e logo.
Quando cortares os calos,
que haja sangue e cicatrizes,
quando arrancares os dentes,
que te fiquem as raízes.
Ingrato Enéias e feroz Teseu,
Barrabás te acompanhe, meu sandeu!
CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de; O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Tomo II, Capítulo LVII.
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quarta-feira, 18 de abril de 2012
sábado, 14 de abril de 2012
Da resposta de Dom Quixote a Altisidora
Tiram as almas dos eixos
as grandes forças do amor,
são os cuidados do ócio
seu instrumento melhor.
As donzelas na costura,
e em ’star sempre atarefadas,
têm antídoto ao veneno
das ânsias enamoradas.
As donzelas recolhidas,
e que desejam casar,
têm na honestidade o dote,
e a voz que as há-de louvar.
Os cavaleiros andantes
e os que vão da corte às festas,
têm com as soltas requebros,
mas só casam coas honestas.
Fútil amor de levante
podem-no hóspedes sentir,
chega rápido ao poente,
porque acaba co’o partir.
Amor que nasce depressa,
hoje vem, vai-se amanhã,
nas almas não deixa impressa
a sua imagem louçã.
Pintura sobre pintura
não é como em tábua rasa;
onde há primeira beleza
a segunda não faz vaza.
Dulcinéia del Toboso
eu tenho n’alma pintada
com tal viveza, que nunca
poderá ser apagada.
A firmeza nos amantes
é dote mui de louvar,
amor opera milagres
por quem assim sabe amar.
CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de; O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Tomo II, Capítulo XLVI.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Altisidora
Ó tu, que estás no teu leito
com lençóis de holanda fina,
dormindo bem regalado,
sem sentires a espertina,
cavaleiro o mais valente
que na Mancha se há gerado,
mais honesto e abençoado
que o ouro da Arábia ardente:
ouve uma triste donzela,
bem-nascida e mal lograda,
que na luz desses teus olhos
a alma sente abrasada.
Achas desditas alheias,
quando buscas aventuras;
e de amor cruéis feridas
tu as dá, mas não as curas.
Dize-me, bravo mancebo,
(que Deus cumpra os teus desejos)
se te criaste na Líbia
ou em montes sertanejos.
Deram-te leite as serpentes?
Foram tuas amas bravias
as aspérrimas florestas
e o horror das serranias?
Mui bem pode Dulcinéia,
donzela sã e gorducha,
gabar-se de ter rendido
um tigre, fera machucha.
Por isso, será famosa
de Jarama até Henares,
de Pisuerga até Arlanza
e do Tejo ao Manzanares.
Eu trocava-me por ela,
e ainda em cima dava a saia
mais vistosa que eu possuo
de áureas franjas na cambraia,
Quisera estar nos teus braços,
ou prestar-te o bom serviço
de te sacudir a caspa,
de te coçar o toutiço.
Muito peço, não sou digna
de mercê tão levantada;
dá-me os teus pés, isso basta,
nem eu desejo mais nada.
Que prendas eu te daria!
escarpins de prata fina,
umas calças de damasco,
uns calções de bombazina;
muitas pedras preciosas,
finas pér’las orientais,
que, a não terem companheiras,
não contariam iguais!
Não mires dessa Tarpéia
este incêndio que me queima,
Nero manchego, que o fogo
avivas coa tua teima.
Menina sou, virgem tenra,
quinze anos não completei;
tenho catorze e três meses,
juro pela santa lei.
Não sou manca, não sou coxa,
não tenho um só aleijão,
meus cabelos cor de lírios,
’stando em pé, chegam-me ao chão.
A boca tenho aquilina,
tenho a penca abatatada;
os dentes são uns topázios!
vê que beleza afamada!
Sou pequenina, o que importa?
A minha voz, fresca e pura,
confessa que (se me escutas)
tem suavíssima doçura.
Conquistou minha alma ingênua
teu rosto que me enamora;
sou donzela desta casa,
e chamam-me Altisidora.
CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de; O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Tomo II, Capítulo XLIV.
com lençóis de holanda fina,
dormindo bem regalado,
sem sentires a espertina,
cavaleiro o mais valente
que na Mancha se há gerado,
mais honesto e abençoado
que o ouro da Arábia ardente:
ouve uma triste donzela,
bem-nascida e mal lograda,
que na luz desses teus olhos
a alma sente abrasada.
Achas desditas alheias,
quando buscas aventuras;
e de amor cruéis feridas
tu as dá, mas não as curas.
Dize-me, bravo mancebo,
(que Deus cumpra os teus desejos)
se te criaste na Líbia
ou em montes sertanejos.
Deram-te leite as serpentes?
Foram tuas amas bravias
as aspérrimas florestas
e o horror das serranias?
Mui bem pode Dulcinéia,
donzela sã e gorducha,
gabar-se de ter rendido
um tigre, fera machucha.
Por isso, será famosa
de Jarama até Henares,
de Pisuerga até Arlanza
e do Tejo ao Manzanares.
Eu trocava-me por ela,
e ainda em cima dava a saia
mais vistosa que eu possuo
de áureas franjas na cambraia,
Quisera estar nos teus braços,
ou prestar-te o bom serviço
de te sacudir a caspa,
de te coçar o toutiço.
Muito peço, não sou digna
de mercê tão levantada;
dá-me os teus pés, isso basta,
nem eu desejo mais nada.
Que prendas eu te daria!
escarpins de prata fina,
umas calças de damasco,
uns calções de bombazina;
muitas pedras preciosas,
finas pér’las orientais,
que, a não terem companheiras,
não contariam iguais!
Não mires dessa Tarpéia
este incêndio que me queima,
Nero manchego, que o fogo
avivas coa tua teima.
Menina sou, virgem tenra,
quinze anos não completei;
tenho catorze e três meses,
juro pela santa lei.
Não sou manca, não sou coxa,
não tenho um só aleijão,
meus cabelos cor de lírios,
’stando em pé, chegam-me ao chão.
A boca tenho aquilina,
tenho a penca abatatada;
os dentes são uns topázios!
vê que beleza afamada!
Sou pequenina, o que importa?
A minha voz, fresca e pura,
confessa que (se me escutas)
tem suavíssima doçura.
Conquistou minha alma ingênua
teu rosto que me enamora;
sou donzela desta casa,
e chamam-me Altisidora.
CERVANTES SAAVEDRA, Miguel de; O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Tomo II, Capítulo XLIV.
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